Opinião

De quão tenrinho é Nuno Crato

De quão tenrinho é Nuno Crato

O conflito entre sindicatos e Ministério da Educação ficou ontem congelado - este é o termo certo, uma vez que, mais tarde do que cedo, Nuno Crato voltará a ter Mário Nogueira a morder-lhe os calcanhares, a propósito de qualquer matéria mais ou menos comezinha que possa pôr em causa o futuro dos docentes. Mário Nogueira e a FENPROF só existem enquanto houver batalhas, o que, como se percebe, obriga a organização sindical a inventar guerras e a empolar conflitos. É o chamado instinto de sobrevivência.

Escrevi aqui, no primeiro dia de greve aos exames, que, desta vez, também eu faria greve. Os motivos dos professores parecem-me válidos, por um lado, e, por outro, a forma torpe como o Governo tratou tão delicada matéria merecia uma resposta à altura. Felizmente, o problema parece ultrapassado, para já.

O ministério de Crato cedeu nos horários zero que ameaçavam colocar milhares de docentes na mobilidade especial; recuou na intenção de atribuir serviço letivo aos cerca de seis mil professores que estão a aguardar a autorização da reforma; deixou claro que o limite geográfico para a mobilidade dos professores dos quadros de escola que não tenham serviço letivo é de 60 quilómetros, tal como acontece com a restante Função Pública; por escrito ficou também o compromisso de que o aumento do horário de trabalho para as 40 horas incidirá apenas na componente não letiva de trabalho individual; finalmente, parte do horário letivo dos diretores de turma continuará a ser atribuído a esta atividade de contacto com alunos e pais.

Convenhamos: não é pouco. É muito. Por ser grande, o recuo significa não apenas uma clara vitória dos sindicatos, mas, acima de tudo, uma condução da negociação em que o Governo esticou a corda para lá do limite do aceitável. Se tivesse cedido antes teria cedido menos.

Crato não é um negociador experimentado, nem tem ao seu lado gente com suficiente tarimba para minorar os danos. Crato é tenrinho. É um cordeirinho nas mãos de Mário Nogueira. É um contrassenso ter uma espécie de Ronaldo das negociações a ser "marcado" por um defesa que joga nos distritais.

Acontece que este é um problema sério, na exata medida em que os pratos da balança estão à partida muito desequilibrados, logo o resultado final tenderá sempre a ser bastante mais prejudicial para o Estado do que para a classe docente. Acresce que a política de comunicação e de coordenação dentro do Governo é a que é: uma miséria. Desejam um exemplo? Enquanto Crato negociava com os ferozes sindicatos, o secretário de Estado da Administração Pública dava uma entrevista sobre... Educação. Esta pluralidade de vozes é bonita, mas ensurdecedora e caótica. E, como se vê, contraproducente. Assim, o Governo não ganha uma...