Opinião

Deixem-nos trabalhar

O primeiro-ministro voltou, ontem, a apelar a um entendimento de longo prazo, supostamente com o PS, para salvar o país das garras da troika e escapar à foice que continua a cortar cerce o futuro dos portugueses. Fê-lo um dia depois de nos ter dito, através do mago das Finanças, que, até 2016, o pacote de austeridade valerá uns brutais 6,5 mil milhões de euros.

O apelo foi estendido à "sociedade", essa entidade vaga a que tantas vezes se atribuem culpas com o único intuito de que elas morram solteiras. "Da mesma maneira que o Estado precisa de um entendimento de longo prazo sobre as bases essenciais do crescimento e da sua reforma, precisamos na sociedade de ser mais cooperativos, de juntar engenho, força e capacidade de trabalho", disse Pedro Passos Coelho no Dia do Trabalhador.

Trata-se de uma verdade insofismável, inatacável e inapagável. Que tem apenas um problema: o Estado é, tantas e tantas vezes, o pau que se crava nesta engrenagem.

Peguemos no exemplo do triângulo institucional formado pelas instituições de Ensino Superior, pelas empresas e pelas autarquias, decisivo, a meu ver, para o desenvolvimento regional e consequente redução das assimetrias. Como tem sido tratado este triângulo?

As universidades e politécnicos com a função de produzir conhecimento aplicável, antes de mais, nas regiões em que se inserem estão no limite da sobrevivência. Fazem das tripas coração para tentar manter a qualidade do que ensinam.

As autarquias, por seu turno, são empurradas para modelos que, em vez de garantirem escala e protagonismo, incentivam divisões estéreis e improdutivas. É o caso da jovem Comunidade Intermunicipal (CIM) do Alto Tâmega, resultado de uma cisão sustentada na distância (era difícil arrranjar um argumento mais idiota) que separa os seis municípios que a constituem dos nove a que agora ficou reduzida a CIM de Trás-os-Montes.

As empresas são vítima recorrente dos custos de contexto que o Estado tarda em eliminar e da carga fiscal que o Governo teima em aumentar. Ainda assim, muitas resistem até ao limite das suas forças. Que são, claro, cada vez menores, como se vê pelos assustadores números do desemprego.

O piedoso pedido feito por Passos Coelho para que sejamos, todos, mais "cooperativos" só pode merecer destes três atores a resposta que Cavaco Silva deu quando sentiu que lhe pisavam os calos: "Deixem-nos trabalhar".

A "sociedade" é feita de gente e instituições a que o Governo tem dado tratamento semelhante ao do barro: molda-se para a esquerda e para a direita, para cima e para baixo até se conseguir o que se pretende. Problema: a "sociedade" olha para o produto final e vê uma coisa sem nexo. A culpa é de quem? Da sociedade que não se dá ao molde? Ou do moldador?