Opinião

Duas condições

Esta é a semana em que começa a definir-se o que será a nossa vida nos próximos anos. A "troika" formada pelo FMI, BCE e Comissão Europeia inicia a discussão com partidos políticos e parceiros sociais sobre as (duras) medidas que o próximo Governo, seja ele qual for, será obrigado a pôr em prática para poder ter nos cofres do Estado dinheiro que chegue para pagar a quem deve, para garantir os salários dos funcionários públicos e para assegurar que os órgãos do Estado não ficam sem o "sangue" (isto é: o pilim) de que necessitam para sobreviver. Bloco de Esquerda e PCP puseram-se à margem das negociações. Merecem um sincero agradecimento. O país não tem tempo a perder - e discutir com eles é, na verdade, uma perda tempo...

A margem de manobra que nos resta para reclamar o que quer que seja é muito, muito escassa. Cada vez mais escassa, à medida que o tempo passa e os dois principais partidos continuam sem dar aos negociadores europeus provas de que têm juízo q.b. para levar por diante a ingente tarefa que lhes caberá em mãos. Ainda assim, há duas condições de que, para nosso bem, dos nossos filhos e dos nossos netos, não podemos abdicar. Ou melhor: de que devemos fazer finca-pé, na medida em que tal for possível.

A economia portuguesa dificilmente aguentará o impacto de um empréstimo de 80 ou 100 mil milhões de euros a pagar num prazo de três anos. Juntar este aperto financeiro aos apertos que a recessão provocará nos sectores público e privado é, basicamente, passar por antecipação um atestado de óbito ao país. A menos que os Deuses decidam bafejar-nos com um milagre, o crescimento económico dos próximos anos não permitirá pôr em ordem o desarranjo das nossas finanças.

Para evitar o descalabro, é igualmente necessário garantir que a taxa de juro a pagar pelo empréstimo que entrará nos cofres do Estado fica bem abaixo da barreira dos 6%. Caso contrário, por muito esforço que façamos, por muita produtividade que alcancemos, seremos incapazes de pagar o pedido a tempo e horas. É como se um banco aceitasse reescalonar a dívida de uma família impondo-lhe uma taxa de juro insuportável.

Já sabemos de ciência certa que as loucuras dos nossos Governos e a montanha-russa das finanças e dos mercados internacionais nos roubaram, pelo menos, duas décadas de desenvolvimento sustentado e sustentável. Já sabemos de ciência certa que o nosso quotidiano piorará bastante antes de melhorar um bocadinho. Sobra-nos, portanto, a esperança de amenizar os danos. É trágico, mas é o que temos.