Opinião

Gaspar, o magnífico professor

Gaspar, o magnífico professor

O leitor desculpará a insistência, mas a alegoria do ministro das Finanças sobre a maratona que estamos obrigados a percorrer até chegar ao ponto pintado a vermelho nos gráficos de Vítor Gaspar trouxe-me à memória mais uma genial fábula de Ambrose Bierce. O título da dita é, sintomaticamente, "Economia de forças". Diz a dita, com as devidas adaptações:

"Um dia, há muitos e muitos anos, ia o 'Magnífico Professor' a subir pensativamente a 'Montanha do Sucesso', quando se cruzou com um 'Homem Simples do Melhor Povo do Mundo', que ia a descer.

O 'Homem Simples do Melhor Povo do Mundo' suspendeu a sua caminhada e interpelou-o:

- Se sigo esta direção não é por ter gosto nisso, mas por não ter alternativa. Peço-lhe, 'Magnífico Professor', que me ajude a chegar ao topo.

- Com o maior prazer, respondeu lenta e pedagogicamente [num estilo muito idêntico ao do nosso estimável ministro das Finanças], o 'Magnífico Professor', cujo rosto se iluminou com a glória irradiante do seu pensamento.

Continuou o 'Magnífico Professor':

- Sempre considerei a minha força um dom sagrado, que devo conservar para socorrer os meus semelhantes. Fique, portanto, tranquilo, que eu assumo a responsabilidade de levá-lo comigo até ao topo. Ora ponha-se atrás de mim, e empurre".

Ambrose Bierce, nascido em 1842 nos Estados Unidos, foi mestre no uso da sátira, do cinismo e do humor negro. Nada escapava à verve às vezes histriónica, outras vezes a roçar o tétrico deste americano que, aos 71 anos, partiu para o México, onde terá sido morto às mãos do revolucionário exército então comandado pelo famoso Pancho Villa.

Não estarei longe de acertar se disser que a maioria dos portugueses adoraria mandar Vítor Gaspar de férias para o México (só com bilhete de ida). Imagens como a que utilizou nas jornadas parlamentares do PSD e do CDS/PP (ou tiradas cheias da mais pura demagogia, como aquela em que o ministro disse estar apenas a retribuir, com os seus préstimos, a aposta que o país nele fez) não revelam apenas falta de jeito para a política, revelam, sobretudo, uma absoluta incapacidade para perceber que o ponto de saturação dos portugueses foi há muito ultrapassado.

Vítor Gaspar é, hoje, parte integrante do problema: já não é parte da solução. Tal como o "Magnífico Professor", também o ministro das Finanças assume a responsabilidade de nos encaminhar até ao topo, desde que o povo, à beira do desmaio por exaustão fiscal, se coloque atrás dele e o empurre pela "Montanha do Sucesso" acima. Ocorre que faltam forças ao povo. E foi Gaspar que lhas tirou.

Dizia Manuel António Pina no primeiro verso de toda a sua obra: "Os tempos não estão bons para nós, os mortos". E, tragicamente, dizia bem.