Opinião

Impressionante é o Castro

O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz o seguinte sobre o adjetivo impressionante: "Que causa admiração; que causa estranheza ou repulsa; que provoca comoção". Exemplos comezinhos ajudam a perceber a ambivalência: eu acho impressionante (no sentido da admiração) a capacidade futebolística do James Rodríguez, jovem jogador do F.C. Porto. Mas também acho impressionante (no sentido da comoção) o estado a que chegou o Sporting.

Numa entrevista ao diário digital Dinheiro Vivo publicada na edição do passado dia 21 do JN, Abebe Selassie, o etíope que representa o Fundo Monetário Internacional na famigerada troika, disse sobre o nosso ministro das Finanças: ele é "muito impressionante" (sic). Quer dizer: Vítor Gaspar suscita-lhe admiração, muita admiração. Talvez por ter conseguido um ajustamento orçamental inferior a 1% do PIB com a ajuda de 9 mil milhões de euros dos indígenas.

Creio que os portugueses aplicam o mesmo adjetivo ao ministro: impressionante, muito impressionante, mas pela repulsa (política, claro) que suscita aos desarmados contribuintes e pela profunda comoção que se instala nos lares dos portugueses sempre que Vítor Gaspar diz qualquer coisa sobre o que aí vem.

Abebe Selassie não conhece, seguramente, Castro Almeida, o presidente da Câmara de S. João da Madeira. Se conhecesse, talvez usasse um adjetivo menos impressionante para qualificar Gaspar.

Forçado, como todos os seus colegas autarcas, a rabiscar uma equação enquadrável no aperto que o Estado impõe, Castro Almeida desenhou um orçamento para 2013 que corta nas despesas do município mas não corta nas despesas sociais. Que baixa a dívida e os impostos, mas não reduz o investimento. Que manterá o pagamento aos fornecedores a tempo e horas. Que cortará os 2% de funcionários que o Estado impõe. E que usará parte dessa poupança para repor um dos subsídios aos trabalhadores da autarquia.

Este, sim, é um trabalho impressionante, que resulta de uma estratégia realista, digamos assim. "Andámos num esforço de poupança há vários anos. É isto que nos permite agora baixar impostos. É esta a linha que defendo ao nível nacional: cortar, primeiro, na despesa, e só depois, se for necessário, aumentar os impostos", diz o social-democrata Castro Almeida, que deixa a autarquia são-joanense no próximo ano (cumpre três mandatos).

"Há pessoas que transformam o Sol numa simples mancha amarela, mas há aquelas que fazem de uma simples mancha amarela o próprio Sol". A frase de Picasso traça bem a diferença entre o que simbolicamente representa Gaspar, que vê no Sol uma simples mancha amarela, e o que representa Castro Almeida, que faz de uma mancha amarela o próprio Sol.

Impressionante, não é?