Opinião

Notícias do bom Portugal

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O leitor imagine-se proprietário de uma empresa que decide ir a uma feira do setor em Shangai mostrar os seus produtos. Pense que, na mostra, tem 3000 expositores de uma dezena de países a ombrear consigo. Convenhamos que, estando num evento de dimensão e importância grande como é (foi) o "Furniture China 2012", pelo menos um friozinho na barriga o há de apoquentar, quando chega a hora de saber se algum dos produtos que levou à feira entusiasmou o júri. Por mais confiante que esteja, é preciso contar com a fortíssima concorrência.

O leitor imagine agora que um dos seus produtos sai vencedor numa das categorias a concurso. O esforço de anos, as dificuldades quotidianas que foi obrigado a ultrapassar, as apostas que resultaram da estratégia definida, o trabalho dos seus colaboradores, tudo acaba de ser reconhecido. O prémio é recompensador, no mínimo. O prémio é a prova de que vale a pena lutar, desde que a alma não seja pequena.

A Fenabel, empresa de Paredes especializada no fabrico de cadeiras em madeira, foi distinguida, este mês, com o primeiro prémio de mobiliário infantil na "Furniture China".

Não conheço Elsa Leite e Mário Leite, o casal que comanda a maior produtora de cadeiras portuguesa. Mas, quando um amigo me deu conta do prémio que tinham conquistado, apeteceu-me endereçar-lhes não apenas os parabéns, mas também um sincero obrigado. Aqui ficam.

Bem sei que, felizmente, há no nosso país e em vários setores de atividade empresas que, como a Fenabel, estão a conquistar mercados e clientes. A crise não lhes passa ao lado, mas também não lhes destrói o ânimo - é aqui que reside a diferença entre quem acredita e quem esmorece.

Não é coisa pouca, esta de andar para a frente quando nos puxam para trás. Tal como está - e continuará a estar -, o país desfaz, com uma velocidade impressionante, vidas construídas a pulso. Exemplos como os da Fenabel são um balão de oxigénio para quem, como a maioria dos portugueses, só tem folga nas costas enquanto o varapau da austeridade vai e vem.

Claro: o sucesso da empresa de Paredes (conhecida como "o alfaite de cadeiras do Mundo", por ter um serviço capaz de responder às necessidades específicas de cada cliente, como o alfaite faz com os fatos) não é fruto do acaso. É fruto da flexibilidade na produção proporcionada pelo know-how, pela tecnologia e pela organização. Quer dizer: é resultado de uma estratégia com cabeça, tronco e membros.

Tenho para mim que ministros como os da Economia ganhariam muito (eles e o país) se fizessem um estágio de seis meses em empresas como a Fenabel. Ali, antes do Excel, há gente de carne e osso a produzir, a fazer economia. Ali há vida para além do défice.