Opinião

O émulo de Marco António

O émulo de Marco António

A dada altura de uma dada Comissão Política do PSD, Marco António Costa, então vice-presidente da Câmara de Gaia, atirou a bomba: "Ou há eleições no país, ou há eleições no PSD". Houve eleições no país. Saiu Sócrates, entrou Passos Coelho. Já passou ano e meio sobre o episódio. Voltámos à estaca zero: ou há eleições no país, ou, mais cedo do que tarde, há eleições no PS.

A declaração de Marco António Costa, hoje secretário de Estado da Solidariedade e Segurança Social, encerrava uma constatação: a crise entre PS e PSD já passara a barreira das contas do então PEC IV. A crise já era obviamente política. E as crises políticas resolvem-se de uma de duas formas: ou os contendores se entendem - e os de então não se entenderam - quanto ao essencial (o caminho que o país deve seguir), ou, não se entendendo, chama-se o povo para encontrar uma solução.

A discussão sobre o estado social é relevantíssima, mas, sobretudo na última semana, o primeiro-ministro, imitando com maestria o elefante que entra numa loja de porcelanas, fez o favor de a deixar descarrilar para uma crise política. A carta que enviou ao líder do PS e o encontro de ontem são patéticos episódios de uma estratégia que aponta apenas para um sítio: o caos. Passos Coelho acorda e adormece a pensar num número: 4 mil milhões. Para chegar lá, tem destruído caminhos onde deviam nascer pontes de entendimento, tem erguido muros onde deviam ser forjados acordos.

António José Seguro está hoje politicamente tão entalado como estava Pedro Passos Coelho há ano e meio. Ontem reafirmou "a oposição do PS a qualquer revisão da Constituição ou outra iniciativa que coloque em causa as funções sociais do Estado: o PS não está disponível para ser cúmplice da política do Governo".

Isto é: Passos Coelho terá de batalhar sozinho pelos 4 mil milhões. O país e os portugueses enrugar-se-ão até ao ponto em que um émulo de Marco António Costa diga basta numa Comissão Política: ou há eleições no país, porque o povo não aguenta mais, ou há eleições no PS. Não falta quem deseje eleições no PS, como todos sabemos. As consequências disso? Insondáveis para o país e para o regime.

Portugal é, hoje, um país em que cada minuto de lucidez corresponde a um arrepio. Um toxicodependente não sabe, não consegue, viver sem a droga que o equilibra. A nossa droga é a dívida pública, que se multiplicou por 20 em 40 anos (passou de 10 mil milhões em 1974 para 203,7 mil milhões em 2012).

Como se sai daqui? Chamando à pedra os partidos do pomposamente intitulado arco da governação (PS, PSD e CDS-PP, juntando talvez agora um Bloco de Esquerda mais moderado). O que tem acontecido? Os partidos estão no arco, mas preocupados, sobretudo, em aceder à governação. É por isso que um destes dias voltará a haver eleições.

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