Opinião

Passos e o suco da papoila

A notícia de que "o sector exportador já ultrapassou a crise", aguardando "pacientemente" que o resto da economia lhe siga o passo, padece do mesmo problema da notícia que dava como certa a morte do escritor e humorista Mark Twain: é "manifestamente exagerada". Quem divulgou a notícia? O primeiro-ministro de Portugal, ontem, dia 27 de fevereiro de 2012.

Pedro Passos Coelho tem companhia. E da boa - também o compatriota Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, considerou, ontem, "impressionante" (sic) "o que estão a fazer em Portugal em termos de aumento das exportações e descoberta de novos mercados". O anúncio do fim da crise, sabemo-lo por descuidos de anteriores ministros, é o ópio dos governantes: o suco extraído de certas papoilas é uma boa ajuda para momentos angustiantes. Mas pode causar entorpecimento e alucinação...

É verdade que o sector exportador tem mostrado, nesta como noutras crises, uma enorme resiliência, fruto da capacidade das empresas, dos empresários e dos trabalhadores em se adaptarem rápido às circunstâncias, procurando mercados lá fora que substituam a ausência de compradores cá dentro. O calçado como sector e o Norte como região são disso excelentes exemplos. O calçado aumentou em 16% as vendas para o exterior em 2001, quando comparadas com o ano anterior. E o Norte, dizem-no cada vez mais economistas, tem feito o trabalho de casa para conseguir levantar mais cedo a cabeça.

Não obstantes estes factos, há outros para os quais não podemos deixar de olhar.

Facto um. Quando divulgou, na semana passada, as previsões para o andamento da economia portuguesa, a Comissão Europeia (sim, a mesma cujo presidente é Durão Barroso...) notou que o crescimento das exportações "desacelerou apreciavelmente em dezembro, em linha com o ambiente económico em deterioração na Europa". Mais: a Comissão espera que as exportações "continuem a sofrer de uma nova desaceleração na procura externa de produtos portugueses no primeiro semestre" de 2012.

Facto dois. Dados do Instituto Nacional de Estatística: comparados dezembro de 2010 com dezembro de 2011, as exportações deram um trambolhão de 15,4 por cento, sobretudo no comércio com o resto da Europa (a nossa principal cliente, com a periclitante Espanha em destaque), mas também no extracomunitário (menos 6,4 por cento).

Perante isto, "poderíamos ser inclinados a dizer que o nosso sector exportador já ultrapassou a crise e aguarda pacientemente o resto da nossa economia", como deseja Passos Coelho? Poder podíamos, mas não devíamos. Falta muito para chegarmos à outra margem (às empresas falta crédito, por exemplo). É melhor irmos devagarinho a darmos passos maiores do que a perna - costumam correr mal...

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