Opinião

O charivari e o essencial

O charivari e o essencial

O charivari que por aí vai a propósito da candidadura de Fernando Nobre, o independente que jurou nunca dar troco aos partidos políticos, nas listas do PSD é bem exemplificativo do desnorte e do desarranjo em que nos metemos. As equipas do Fundo Monetário Internacional (FMI), Comissão Europeia e BCE que determinarão o nosso futuro por muitos e maus anos já começaram a chegar. O que aí vem deveria ser matéria de reflexão bem mais importante do que a escolha de Nobre.

O fundador da AMI decidiu, está decidido. Que acrescentar a este epifenómeno? Que o PSD se engana, caso julgue que Nobre leva consigo os 600 mil votos conseguidos nas eleições presidenciais? Que assusta ter um homem sem qualquer experiência política relevante como segunda figura da Nação? São evidências que contam pouco para os trabalhos que temos pela frente...

Para o caso de ser insuficiente sabermos que o empréstimo de 80 mil milhões vai demorar anos a ser pago, aqui ficam as mais fresquinhas estimativas do FMI para Portugal, mesmo antes de se conhecerem as medidas de austeridade: seremos a única das ditas economias periféricas da Zona Euro em recessão no próximo ano (a quebra estimada é de 1,5%); o défice das contas públicas será o mais elevado de todos. Se sobrevivermos, em 2012 a Grécia, a Irlanda e a Espanha já deverão apresentar taxas de crescimento entre 1,1% e 1,9%. Nós? Nós voltaremos a cair na produção de riqueza (0,5%).

Sim, são muitos e negros números. A tradução é a seguinte: o desemprego vai aumentar; o custo de vida vai aumentar; o poder de compra vai baixar; a economia vai sofrer. Quer dizer: as famílias vão ter muito mais dificuldade em chegar ao final do mês com as necessidades básicas, pelo menos essas, todas satisfeitas.

De modo que devíamos estar todos a preparar-nos para este histórico apertão. E, no mínimo, a ouvir dos principais partidos propostas, caminhos, saídas... Em vez disso, é-nos oferecido um menu em que constam congressos de plebiscito, ódios cordiais e discusões infindáveis sobre a desilusão que um personagem chamado Fernando Nobre acaba de causar a 600 mil almas que nele vislumbraram, com tremenda bonomia e muita ingenuidade, a salvação.

Rejeitemos o menu. É uma questão de higiene política não embarcar neste salsifré que está ser montado à nossa volta. As próximas eleições não são eleições normais - são, infelizmente, anormais. Sabemos (e quem não sabe deve ir amadurecendo a ideia...) que o nosso modo de vida não voltará a ser o mesmo durante muitos e muitos anos. Exijamos que as tratem como tal. Como decisivas.