Opinião

O estertor da Linha do Tua

O estertor da Linha do Tua

A comissão técnica que investiga a(s) causa(s) do acidente ferroviário que, em Agosto passado, matou uma pessoa e feriu 37 na Linha do Tua pediu mais um mês para chegar a conclusões minimamente seguras. Ou seja: se não for requerido outro adiamento, terão sido necessários três meses para apurar todos os factos e deles retirar as devidas ilações.

É muito tempo? Será muito tempo se, no final, a culpa morrer solteira. Será o tempo necessário, caso fiquemos a saber por que razão caiu aquele comboio. E se esta conclusão ajudar a perceber o motivo pelo qual, em ano e meio, faleceram quatro pessoas em acidentes na mesma linha. Nos 120 anos anteriores não há registo de qualquer acidente mortal.

O principal problema da Linha do Tua é situar-se… no Tua. O facto de se encontrar numa região votada ao abandono há muitos anos, e provavelmente de forma irreversível, ditou-lhe a sorte. Pouco importa que o seu potencial turístico e cultural seja enorme. Pouco importa que ofereça exclusividade, uma das marcas mais distintivas dos actuais tempos globalizados. A ditadura dos números ultrapassa todos esses pequenos pormenores.

E o que dizem os números? Dizem que a infra-estrutura tem uma muito baixa utilização (uma média de 20 passageiros nos comboios que diariamente circulam em cada sentido). Contra factos não há argumentos.

Sucede apenas que os números resultam de uma opção que tem protagonistas. A falta de investimento na Linha, a ausência de uma visão estratégica que saiba compaginar as obras modernas e de larga visibilidade, como barragens e auto-estradas, com as amplas virtudes deste tipo de ferrovia e com a importância do nosso património mais estimável empurram para um ciclo vicioso que dá um certo jeito a muitos: sem investimento a Linha deteriora-se e a deterioração da Linha justifica, a seguir, a falta de investimento. Se a isto se somarem recorrentes dúvidas sobre a segurança do percurso em causa obtém-se o desejado: fundamento suficiente para justificar o encerramento da Linha e avançar para investimentos mais rentáveis.

O que é essencial agora? Que se apurem as causas da(s) morte(s), antes de tudo o mais, de modo a evitar mais "estranhos acidentes", como os qualificou a secretária de Estado dos Transportes. De seguida, deve reclamar-se uma decisão definitiva do Governo sobre o futuro da Linha, porque não faz qualquer sentido prolongar a agonia da Linha: ou se investe, ou se abandona, assumindo todos os custos daí decorrentes.

De resto, os transmontanos já conhecem há muito o sabor das perdas. Mais uma só lhes enrugará um pouquinho mais a alma. Nada de mais.

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