Opinião

Rio e o Galo de Cheshire

Rio e o Galo de Cheshire

Quando, na passada terça-feira, Rui Rio deu uma conferência de Imprensa para dizer que está sem disposição para debater com Paulo Rangel, preferindo focar-se no combate a António Costa, lembrei-me do Gato de Cheshire, personagem de "Alice no País das Maravilhas". Uma das mais intrigantes figuras da extraordinária obra de Lewis Carroll, o gato tem o dom de aparecer e desaparecer quando lhe apetece. Faz parte do conto, mas é como se não estivesse lá. Quando tenta ajudar Alice a enquadrar-se naquele mundo louco, fá-lo com narrativas confusas.

O argumentário do (ainda) líder do PSD é, no mínimo, intrigante. Diz Rio: debater com Rangel o futuro do partido é perda de tempo, é deixar Costa à solta para fazer campanha eleitoral rumo às legislativas. Não resulta daqui grande amor pelos militantes sociais-democratas. Resulta, isso sim, um paradoxo: um dia depois de Costa ter dado uma entrevista de fundo, Rio chama os jornalistas não para contrapor o que disse o líder do PS, mas para atacar Rangel.

A coisa é tão confusa quanto as indicações que o gato dá a Alice. Tal como o adorável bichano, Rio aparece a despropósito, e desaparece quando é suposto aparecer. Até o militante mais discreto há de perguntar-se: Rio só agora rasga as vestes, jurando opor-se aos socialistas até que a voz lhe doa? Não era suposto ser já claro o que o separa de Costa?

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Eis o problema: Rio consumiu o tempo a tecer pontes com Costa, para o bem e para mal. Ficou a meio da ponte: quando lhe deu jeito, como nos Açores, caminhou para a direita, para a seguir voltar ao centro; quando foi preciso, como no Orçamento, deu a mão à esquerda, regressando ao centro. Apareceu e desapareceu, como o gato de Cheshire. Resultado: agora esbraceja, para sobreviver.

*Jornalista

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