Opinião

Várias razões para ter medo

Várias razões para ter medo

O que é o medo? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz que é "um sentimento de inquietação que surge com a ideia de um perigo real ou aparente", um "susto", um "receio", um "temor" ou mesmo um "terror". Há uma série de velhos provérbios sobre o tema. Gosto deste: "Maior é o perigo onde maior é o medo". Não gosto deste: "Quem tem medo recolhe para casa cedo" - é uma outra versão do medricas "quem tem medo compra um cão".

Foi de medo, ou da iminente chegada dele ao tecido social português, que Silva Peneda falou nas comemorações do 10 de junho, num discurso digno de um estadista -facto assinalável: o presidente do Conselho Económico e Social (CES) tem vindo paulatinamente a sustentar, no meio da turbulência, um importante papel moderador. Disse o ex-ministro dos governos de Cavaco Silva: "O trabalho é o principal fator de coesão social". Faltando emprego (não tarda e a nossa taxa sobe aos 20%) nasce uma "séria ameaça" de rotura. "Daqui ao medo é um pequeno passo", concluiu Silva Peneda.

Enquanto o presidente da República se envolvia nos florais jogos da política (demonstração: a necessidade de sublinhar, mais uma vez, que não é um "ator político que se envolve no jogo entre maiorias e oposições", como se tal coisa fosse possível), Silva Peneda punha o dedo na ferida exposta em que está transformado o país. A questão é: como curá-la, ou no mínimo, atenuar-lhe a dimensão?

Sim, através da "busca de compromissos", como defende o presidente do CES. Mas também fazendo reformas com "gradualismo e bom senso". Chegamos ao ponto: gradualismo e bom senso são dois atributos que têm escapado à política deste Governo. A consequência dessa escolha está à vista: não estamos a um passo do medo, estamos metidos no meio do medo, ainda não como sinónimo de terror, mas certamente como sinónimo de inquietação, receio e temor.

Tem medo, muito medo, quem não encontra trabalho. Tem medo, muito medo, quem chega a meio do mês sem dinheiro para governar a casa e encaminhar a vida. Tem medo, muito medo, quem olha para a conta e vê dinheiro a menos e, ao mesmo tempo, olha para as contas e vê dinheiro a mais. Tem medo, muito medo, quem olha para os filhos e os vê partir para fora ou não lhes vislumbra futuro cá dentro. Há muita gente com medo, com muito medo.

"No amor não há medo, antes o perfeito amor lança fora todo o medo. Porque o medo envolve castigo, e quem tem medo não está aperfeiçoado no amor (1 João 4, 18)". Esta passagem bíblica ilustra bem, julgo eu, o que Silva Peneda quis dizer: é preciso, já, um escudo forte de solidariedade para que o medo não vingue. Construí-lo será um grande passo.

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