Opinião

Eles leram tudo sobre concorrência

Eles leram tudo sobre concorrência

Qualquer breviário de Economia - nem precisa de ser assinado por um grande especialista - ensina que a concorrência é um inestimável bem para o consumidor. O mecanismo é tão elementar que não autoriza dúvidas existenciais, se alguém se atrevesse a tê-las: como as empresas disputam entre si fatias do mercado, quanto mais se esgadanharem melhores condições hão-de oferecer ao cliente, a começar pelo preço.

É tão simples que até dá para desconfiar. O próprio sistema o percebeu, tratando de recomendar um conjunto de instrumentos que garantam concorrência leal. O problema é que, como alguém disse, por vezes na prática a teoria é outra.

No quotidiano, o pobre do consumidor sabe que a concorrência é, em certos sectores, força de expressão. Que sim, que há concorrência, mas o preço da electricidade não baixa e os combustíveis continuam a custar os olhos da cara, seja qual for o fornecedor. É só dar uma espreitadela aos painéis que polvilham as auto-estradas para perceber a inutilidade de tal investimento: sucessivas gasolineiras apresentam preços exactamente iguais. E o povo fica perplexo: "Queres ver que, em vez de concorrerem, eles cooperam?" Deve ser um impulso da malediência nacional, porque a Autoridade da Concorrência - só o nome mete respeito! - estudou vezes sem conta a problemática e concluiu que está tudo nos conformes.

Numa entrevista dada anteontem à Renascença, o antigo presidente da dita autoridade disse isso mesmo: "Quando eu lá estava, não me pareceu haver novidade". Agora que está de fora, já suspeita que ali há coisa. Mas nem assim põe o pé em ramo verde. Prudente, tira o sal às palavras. Fala em "acordo tácito" entre operadores e em "alinhamento de preços".

Nunca se ouve Abel Mateus caracterizar a situação com a expressão fatal: concertação de preços. Que, a existir, seria violadora das regras da concorrência. Nada de ilegal, portanto, embora vislumbre um monopoliozito da Galp na refinação, que deve ser coisa nova, ele nunca a tinha visto. É aqui que bate o ponto: os operadores são mesmo "refinados". Leram bem os manuais, para aprenderem a dar a volta à concorrência.