Opinião

Quem amansa os patos bravos?

Quem amansa os patos bravos?

Os construtores civis são quem hoje verdadeiramente manda nas câmaras municipais. Na maioria dos concelhos, não há um único negócio com relevância económica que não passe pelas construtoras e suas associadas.

Nada lhes escapa, a começar pelas obras públicas, sempre caras e por vezes de má qualidade. Os custos com trabalhos extraordinários raramente têm controlo, como o atestam as derrapagens nas contas dos estádios do "Euro" ou na expansão do metro de Lisboa.

São também os imobiliários que dominam os mecanismos perversos e mafiosos do urbanismo, ora construindo sem licenças, ora conseguindo a aprovação de operações urbanísticas irregulares, ou mesmo alterando os planos directores a seu bel-prazer. O edifício do Vale do Galante, na Figueira, ou a Quinta do Ambrósio, em Gondomar, são exemplos bem visíveis deste tipo de práticas e constituem feridas profundas no regime democrático.

E são ainda as construtoras os principais accionistas das empresas de recolha de lixo, hoje detentoras de contratos de concessão a dez ou mais anos. Garantem assim que as taxas de resíduos sólidos pagas pelos cidadãos lhes vão cair directamente no regaço. Muitas empresas do sector do ambiente mais não são do que construtoras travestidas de ecologistas.

Não lhes bastando o domínio do solo, evoluíram depois para o subsolo, numa primeira fase através das concessões de parques de estacionamento. Com a cumplicidade de dirigentes dos dois principais partidos, empresas como a tristemente famosa Bragaparques do corrupto senhor Névoa, dominam o estacionamento das cidades e a sua vontade determina até os fluxos de trânsito.

Avançam ainda para o controlo dos portos, através de contratos obtidos sem concurso, como a prorrogação da concessão do terminal de contentores de Lisboa, oferecido à Mota Engil, do socialista Coelho.

Mas a gula dos empreiteiros não esmorece, a saga continua. A última moda tem sido as parcerias público-privadas para a distribuição de água e saneamento. A maioria destes acordos é um verdadeiro suicídio para os municípios, pois assegura receitas mínimas para o negócio, aumenta escandalosamente os preços e garante lucros para os privados, sendo os prejuízos caucionados pelos orçamentos camarários.

São pois diversas as formas de canalizar recursos municipais para o enriquecimento dos patos bravos do betão. Por este andar, já só falta mesmo os contribuintes pagarem os impostos… directamente às construtoras.