Opinião

Liga dos últimos

A convergência com a média da riqueza por habitante na União Europeia foi, e deve continuar a ser, uma ambição de gerações de portugueses.

Como nunca em muitos séculos, beneficiámos nas últimas décadas de oportunidades únicas para o conseguir. No entanto, depois de rápida aproximação após a entrada na Comunidade Económica Europeia, a partir de finais da década de 90 do século passado Portugal começou a afastar-se consistentemente da média.

Os números não mentem. De nada adianta manipulá-los, para dizer que crescemos mais do que a média da União Europeia: a média é ponderada, e as maiores economias têm crescido menos, mas Portugal tem sistematicamente sido dos países que menos crescem. Os países com economias comparáveis à nossa - economias abertas, de dimensão comparável - crescem mais que Portugal, o mesmo acontecendo, desde logo, com o nosso único vizinho. E fazem-no perante o mesmo contexto externo.

As causas desta situação são complexas. É claro que a profunda crise financeira para a qual o nosso país foi atirado, com o consequente aumento da dívida, pública e das empresas, e a falta de investimento, também público e privado, estão no centro da evolução mais recente. Encontram-se nichos em que a produtividade evoluiu. Globalmente o país passou a exportar mais. Mas é ainda insuficiente. E sobretudo, muito pouco na política económica dos últimos anos tem contribuído para alterar esta situação. Portugal necessita de políticas mais amigas do investimento e do crescimento económico, concentradas em setores de maior valor acrescentado, e menos na satisfação de clientelas políticas ou partidárias.

Em 23 anos (desde 1996), o Partido Socialista só não governou em pouco mais de 6 anos - quatro dos quais (2011-2015) correspondentes a uma situação de profunda crise, em que para escapar à bancarrota foi necessário aplicar um programa de austeridade muito rigoroso, aliás acordado ainda pelo Governo socialista.

Os efeitos de tão grande domínio do poder notam-se a diversos níveis - e alguns têm sido objeto de discussão e surpresa pública recentemente. Mas talvez o mais pernicioso seja o constante adiamento das reformas estruturais indispensáveis, se não quisermos continuar na Liga dos últimos - ou até, perante inevitável nova crise, simplesmente escapar à despromoção.

*PROFESSOR UNIVERSITÁRIO

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