Opinião

António Ramalho Eanes

António Ramalho Eanes

Há Homens maiores! Maiores que o seu tempo, maiores que as suas funções, maiores que a circunstância. Estes Homens, como os grandes marinheiros, revelam-se nas tempestades, nos momentos extraordinários ou de exceção.

António Ramalho Eanes teve uma longa carreira militar e foi o primeiro presidente da República eleito após o 25 de Abril.

Este fato, por si só, seria motivo para lhe conferir um lugar na história de Portugal dos últimos 50 anos. Mas não é do militar, do político nem do presidente que venho falar. Quero falar do Homem, do cidadão, da figura pública densa, discreta e profunda.

Não conheço pessoalmente o General Ramalho Eanes e apenas me cruzei com ele em cerimónias de Estado na Assembleia da República.

Para além da sua carreira política, feita de bons e menos bons momentos (como qualquer decisor político) sempre o considerei um personagem decente e sério, no melhor sentido que as palavras alcançam.

Mas, aos meus olhos, dois momentos o elevam à categoria dos "homens de exceção".

O primeiro teve início em 1984, ano em que foi criada uma "lei fotografia", ou seja, uma lei criada para se lhe aplicar e pela qual se impedia a acumulação de pensões a que Eanes teria direito. Esta lei, que diretamente o prejudicava de forma injusta e desigual, foi criada pelo Governo e promulgada pelo próprio presidente Eanes, com evidente prejuízo pessoal.

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Só passados mais de 20 anos - 20 anos de impedimento de acesso à sua reforma como general - foi reposta a justiça, por intervenção, entre outros, do provedor de Justiça, com direito ao pagamento dos retroativos que, somados, ascendiam a cerca de um milhão de euros. E o que fez Ramalho Eanes? Prescindiu desse valor.

Quantos portugueses teriam tido o desprendimento e a grandeza deste gesto? Poucos, seguramente muito poucos...

A este gesto, singelo, sereno, mas revelador do caráter deste Homem, juntou-se há dias um outro, tão ou mais esmagador de grandeza e humildade.

Entrevistado na RTP sobre estes momentos de exceção que vivemos com a pandemia do coronavírus, Ramalho Eanes, revelando uma fortíssima sensibilidade a que, creio, não serão alheias as suas convicções religiosas, falou de solidariedade, de humildade e de amor. Mas foi mais longe.

Na parte final de entrevista e com visível emoção declarou, dirigindo-se aos mais velhos: "se for necessário, oferecemos o ventilador ao homem que tem mulher e filhos".

Aprendi com o meu Pai que "a palavra emociona, mas o exemplo arrasta". Há poucos assim.

*Deputado do PSD

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