Opinião

Partidos ou movimentos?

De forma ainda tímida, Portugal reflete o sentido global de afirmação de movimentos políticos em desfavor de partidos políticos. Dos casos nacionais de movimentos políticos, emerge com especial notoriedade o caso do Porto e do Movimento: "Rui Moreira o Porto é o nosso Partido". E, a partir deste exemplo, valerá a pena olhar o "modelo de partidos", que serve de base ao nosso sistema político (pelo menos parlamentar).

Com a serenidade de militante de um partido (PSD) que se afirma como oposição política ao atual Executivo camarário, tenho vindo a refletir sobre o desgaste (político, conceptual e ideológico) que os partidos (tradicionais?) têm vindo a sofrer.

Ora, como todos sabemos, "a política tem horror ao vazio" e, aos primeiros sinais de incapacidade dos partidos serem porta-vozes ou intérpretes dos sentimentos e anseios dos cidadãos, rapidamente outros movimentos correm a cobrir e ocupar esses vazios.

Convenhamos que, como origem destes movimentos, temos "para todos os gostos", desde os mais populistas e oportunistas, passando pelos que encarnam o prestígio ou notoriedade do seu cabeça de lista juntando à sua volta competência, até aos renegados ou esquecidos dos (seus) antigos partidos, agora travestidos de "independentes".

Esta constatação levanta várias interrogações, desde logo e à cabeça a mais básica: os movimentos refletem a "falência" dos partidos ou têm vida própria e refletem o sinal dos tempos?

Dito de outra forma (mais provocatória): se os partidos retornarem à sua forte implantação popular, fruto de distintiva abordagem ideológica, pragmatismo de projeto e clareza da comunicação, farão esquecer ou desacreditar os "movimentos políticos"?

A propósito deste tema e por iniciativa do Núcleo Ocidente do Porto (PSD - SOP) que reclama para si a qualificação de mais histórico Núcleo Político do PSD e onde passaram militantes como Francisco Sá Carneiro, foi promovido um interessante debate, que tinha exatamente por tema "Partidos políticos e movimentos independentes" que me aprestava para moderar com grande expectativa, mas que circunstâncias terceiras obrigaram a adiar, mantendo contudo o tema acrescida atualidade.

O Movimento "Rui Moreira o Porto é o nosso Partido" (2013) tem origens muito particulares, que se prenderam com a falta de "sucessor natural" do projeto do PSD para o Porto, a que se juntou forte oposição interna (expressa e implícita) ao candidato, à data, do PSD (Luís Filipe Menezes) e, sejamos justos, uma campanha muito bem montada, orquestrada e experiente, a que se juntou um candidato com grande notoriedade e prestígio na cidade.

Além desta primeira vitória, se juntarmos a este enquadramento a tímida oposição do PSD na Invicta e quatro patrióticos anos (com troika em Portugal) no Governo e dois de oposição ao primeiro Governo que uniu todas as esquerdas, Rui Moreira tinha tudo para (re)ganhar. E ganhou.

Mas, aqui chegados, a resposta do PSD só pode ser uma: unir, ouvir, propor e afirmar uma alternativa forte, coerente e consequente.

Unir o partido e a sua base eleitoral tradicional, que, recorde-se, foi conquistada por Rui Moreira há 4 anos. Ouvir a cidade e os seus agentes - em especial os autarcas ignorados - bem como as mais prestigiadas instituições da cidade. Evitar a crítica infundada ou cega, que só descredibiliza qualquer oposição séria. Ser capaz de reconhecer virtudes e apontar defeitos. E, principalmente, construir projetos, programas e protagonistas que relancem o PSD como verdadeira alternativa à liderança do Município do Porto.

No momento em que o PSD e o PSD do Porto atingirem e reganharem prestígio, popularidade e programa, teremos o verdadeiro "teste do algodão" aos movimentos e, neste caso, ao Movimento Rui Moreira.

Termino com uma última dúvida, que carece igualmente de comprovação prática: os movimentos políticos já provaram saber conquistar votos e ganhar. Mas saberão perder? Saberão servir a Democracia na oposição?

* Deputado do PSD