Opinião

De que me serve?

As opções dos eleitores são, muitas vezes, ditadas por meros fatores de conjuntura, acontecimentos recentes ou promessas de última hora. É assim.

Mas, não ignoramos, constitui elemento decisivo de avaliação política e sentido de voto a "carteira dos eleitores", ou seja, o rendimento obtido ou o aumento de apoios, benefícios ou descontos.

É neste caldo de cultura que tem vivido este Governo. De facto, entre reversões ideológicas, "reposição de rendimentos" e aumento do salário mínimo ou outros abonos, terá criado nos portugueses um sentimento de desafogo e rendimento aumentado.

Para alguns, os mais distraídos, a consequência é evidente: os portugueses vivem melhor e está a subir a sua qualidade de vida e as perspetivas de futuro próximo. Pura mentira... No final do mês (ou, muitas vezes, antes desse momento), não interessa tanto o que "entrou no bolso" mas o que "saiu do bolso" ou se perdeu na ausência dos serviços públicos; interessa mais perguntar, com verdade: os portugueses vivem melhor ou vivem iludidos que vivem melhor?

Creio que os últimos anos e, em especial, o último ano, ajudam a responder com clareza a esta pergunta pois, contas feitas, os portugueses vivem agora pior e as tais "perspetivas de futuro" não são tão sorridentes como o sorriso do nosso ainda primeiro-ministro.

Afinal, de que me serve o aumento do salário, se os serviços de saúde colapsam e tenho de recorrer - e pagar! - aos serviços de saúde privados?

De que me serve a redução do valor do passe social, se não tenho transportes urbanos e regionais, a cumprir horários, com rapidez e conforto compatíveis?

De que me serve uma redução do IRS, se vivemos todos "com o credo na boca" face à insegurança da ferrovia (a cair aos bocados, literalmente......) - já não chegava o estado da rodovia, agora comprovado com o aumento da sinistralidade rodoviária?...

A tal "TAP pública" presta melhor serviço?

O que resolve baixar propinas, se os estudantes não têm residências universitárias a preços compatíveis?

Então os impostos não são destinados a garantir serviços públicos adequados e investimento público seletivo? Temos de "ser todos Centeno"?

Se estamos a viver melhor e a preparar o futuro, porque não cresce a taxa de poupança? Tudo somado, a austeridade continua, mas agora travestida de "outro caminho".

E assim vai Portugal. Até outubro.

*Deputado do PSD