Opinião

"É geringonça, mas funciona"?...

"É geringonça, mas funciona"?...

A maioria artificial fabricada para aceder ao poder em Portugal tem múltiplas barreiras que internamente a dividem. Mesmo com a súbita e conveniente deriva de (extrema) Esquerda do PS, especialmente visível no novel euroceticismo socialista (criticado até pelos seus históricos...), a que se junta a cedência populista e leviana às exigências do Bloco e do PCP, certo é que o barro que une estes partidos é só um e se esgota em si mesmo: a manutenção do poder.

O programa é simples: gerir o dia a dia, diabolizar o PSD e qualquer discurso de alerta, negar ou "interpretar" os números e esperar um milagre... em suma e numa palavra "aguentar"!

No campo parlamentar, assistimos até à suprema hipocrisia de ver BE e PCP com intervenções críticas e de oposição às propostas do Governo, mas com os seus deputados a terminarem o dia, mansos e discretos, a votar e aprovar em bloco (nunca os vi votar de outra forma...) aquilo que, poucas horas ou dias antes, tanto criticavam.

O tão louvado clima de distensão que alguns dizem que se vive, mais não é do que a brisa que antecipa a borrasca e, acredito firmemente, poucos em Portugal têm hoje dúvidas de estarmos a ser levados ao abismo e que esta aventura de governação contra a realidade terá um dramático fim.

E as sondagens? Sondagens... quando a realidade é dura e a verdade amarga, a tentação de aceitar e engolir a "mentira doce" ou a narrativa sedutora é forte... mas foram já muitas as vezes em que o povo português demonstrou maturidade e clarividência no momento do voto.

Voltando ao início, temos de concluir que aquilo que "funciona" na geringonça que nos (des)governa não são as políticas, as soluções ou o tal "outro caminho" que invocavam.

Não. Aquilo que "funciona" é - bem ou mal, com ou sem resultados, de forma coerente ou contraditória - quase um ano passado, aqueles 3+1 partidos se "aguentarem" no poder.

E é perante esta evidência que uma questão se coloca: será este modelo da "geringonça" (com as mesmas ou outras formulações) replicável nas eleições autárquicas?

Mesmo sabendo que a nível local as diferenças ideológicas se esbatem mas ou egos pessoais se agigantam, estaremos perante a iminência de fotocópias de geringonça de caráter local?

Convenhamos que já hoje se ensaiam vários modelos de geringonça local, juntando o que se julgava impensável, numa mixórdia pragmática de poder pelo poder, sem coerência, sem projeto e sem ambição.

Sempre ouvi dizer que "o poder cega", mas oxalá os portugueses não permitam, ademais, que lhes atirem "areia para os olhos".

* DEPUTADO DO PSD