Opinião

Por unanimidade e aclamação!

Por unanimidade e aclamação!

No passado dia 1, aqui no JN, acompanhada de uma foto que diz (quase) tudo e com o título "PS Porto apoia recandidatura de Rui Moreira", Portugal e o Mundo tomaram conhecimento que, "por unanimidade e aclamação", a Concelhia do PS/Porto aprovou o apoio à recandidatura do atual presidente da Câmara do Porto.

Esta aprovação, e logo "por unanimidade e aclamação", suscita (além de um sorriso) algumas questões e perplexidades.

Antes de mais, cumpre assinalar que o PS colonizou a forma de votação do PCP e do Bloco: a coisa vai por unanimidade... e, à cautela, por braço no ar...! Basta vê-los todos a votar no Parlamento, tão certinhos, tão convictos, tão brandos.

A acrescer e num partido que tinha a particularidade (e o encanto) de nunca, mas nunca, haver unanimismos (quem não se recorda do eterno "há sempre alguém que resiste?"), o PS adota esse novo estilo de votação de raiz norte-coreana, mas logo num momento e numa eleição em que não tem candidato! Ou seja, desde que não haja candidato, no PS não há divergências... Estranha forma de vida...

Mas há mais... Como sabemos, Rui Moreira não tem partido, não tem ideologia, não tem programa (dizem que tem um "Manifesto Eleitoral") e ainda não pediu nada a ninguém. Então o que tem? Tem o Poder... e, aparentemente, para CDS e para o PS isso justifica tudo.

Paradoxalmente, Assunção Cristas e António Costa apressam-se a dar o que ninguém lhes pediu! E, como se não bastasse, apoiam primeiro e conversam depois.... Não se articulam ideias, projetos, prioridades; não se conjugam pessoas e valências... Por este andar, acabarão a receber o que lhes derem... se derem.... Estranha forma de vida...

Convenhamos que, por comparação ao que nos aprestamos para assistir no Porto, qualquer manual de ciência política é obra datada e caduca e só se encontrará paralelo a isto na moderna América Latina.

Conseguem imaginar a construção do próximo Manifesto Eleitoral (partindo do princípio que vai haver outro, pois falta cumprir este) com a singular mistura de socialismo democrático (perdão, socialismo pragmático), com um toque de doutrina social da igreja e uma dose elevada de... de... de... Rui Moreira?

Como será o debate eleitoral que oporá Rui Moreira (ladeado por A. Costa e A. Cristas) contra a candidata do BE (possivelmente Catarina Martins)? E Rui Moreira, permitirá bandeiras do PS e do CDS nas suas ações de campanha ou metem todos a bandeira no saco? E nas "arruadas", diz-se bem do Governo ou critica--se a geringonça?

Já estou a imaginar os eleitores do PS e do CDS a procurar afanosamente nos boletins de voto a rosa, o punho, as setas a apontar o centro, qualquer coisa que cheire ao partido que tinham, mas que - por ausência de alguém (não há mesmo ninguém?) que personifique os seus valores - se entregou "de mão beijada" a quem só poderá ter para partilhar o poder e os lugares aquilo a que o nosso povo chama carinhosamente a "mercearia".

Se pensarmos que Rui Moreira foi eleito essencialmente (mas não só) com os votos do eleitorado social-democrata e centrista e por herança direta de Rui Rio (circunstância que Rui Moreira parece ter esquecido, mas nós não esquecemos), qual será a reação do eleitorado socialista e esta solução política "low-cost"?

Bem sei que este conjunto de reflexões fica incompleto sem falar do maior partido da oposição no Porto: o PSD. Não faltará momento e motivo para falar do PSD, o que me proponho fazer brevemente e sem receios, arrogância ou calculismo.

Mas hoje o PS/Porto preenche o nosso imaginário e esta reflexão é dedicada ao PS/Porto. Por unanimidade e aclamação, claro!

* DEPUTADO DO PSD