Opinião

Muleta não!

"Em democracia, as grandes reformas estruturais dependem, em muito, do quem exerce o poder mas, em igual medida, de quem lidera a oposição". Esta frase, proferida por Rui Rio no início do seu mandato, corresponde à perceção, correta, de que as grandes reformas, que exigem especiais maiorias de suporte político ou parlamentar, obrigam (neste caso) o líder do PSD a um especial sentido de responsabilidade e defesa do superior interesse coletivo, mesmo que em detrimento da conveniência política ou estratégia do seu partido. Nada que ofenda o pensamento de Sá Carneiro: Primeiro o país e, só depois, o partido.

Nos últimos três anos foi esse o pensamento/ação do líder do PSD, ou seja, abertura para o debate com o Governo/PS sobre grandes reformas, sem prejuízo da demarcação dos caminhos e programas diferentes, senão mesmo, contrários.

Este estilo, coerência ou persistência, nem sempre colheu aplauso interno e externo ao PSD. Todos recordamos as acusações de servilismo a António Costa ou a insinuada intenção de Rui Rio cortejar o PS para um futuro Governo de bloco central.

E, mesmo o falhanço de algumas das reformas formalmente conseguidas, não retira validade ao princípio que norteou o PSD. O pacote da descentralização não foi um êxito, por culpa de quem? Como diz o povo: "quando um não quer, dois não dançam" e Costa sorriu, mas, no fim, não dançou.

Coisa muito diferente de "acordos de regime" ou reformas estruturais responsáveis, é ser "muleta de poder" ou "prémio de consolação" das iniciativas erráticas do Governo, cujo pragmatismo lhe permite negociar, com despudor, sobre todos os temas com todos os partidos.

O caso da Lei de Bases da Saúde foi paradigmático de tudo quanto acima se invoca.

O PSD tinha e tem a sua própria proposta, sempre a mesma, conhecida e divulgada. O PS, a exemplo do que já tinha feito antes (por ex. na chamada "Lei Uber", das TVDE) começou por negociar à Esquerda (radical), com avanços e recuos vários; chegou a ter duas propostas (a do Governo e a do PS!?) e, finalmente, meio rendido, virou-se para o PSD.

Em coerência, o PSD esteve disponível para ouvir, ponderar e avaliar os avanços ou aproximações do PS às propostas já conhecidas dos sociais-democratas. Mas o PS queria mais; queria ter as propostas que apresentou à Esquerda aprovadas, agora pelo PSD! Puro engano...

Moral da história: o PSD ficou onde sempre esteve (e bem!). O PS lá foi (re)dançar de novo nas mãos do BE e PCP, mas ficou a saber que, com o PSD, muleta não!

*Deputado do PSD