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Opinião

O povo não é estúpido

O povo não é estúpido

A generalizada indignação e revolta provocada pelos projetados festejos do 25 de Abril e 1 de Maio não tem nada a ver com democratas ou fascistas, mas tem tudo a ver com democracia.

A democracia carateriza-se pela afirmação eletiva da vontade maioritária, através dos órgãos de poder, com respeito de todas as minorias ou oposição à maioria. Então a democracia é a "ditadura da maioria"? Às vezes pode ser, mas não deve ser.

Na democracia participativa e madura em que vivemos, não chega "impor" a vontade de quem manda; temos de ser pedagógicos e coerentes, para não gerar incompreensão, sentimento de injustiça e abrir portas a populismos perigosos. Diria que, em democracia, temos de vencer e (tentar, sempre) convencer.

Ora, por maioria de razão, em estado de emergência e com graves constrangimentos e especiais ataques aos nossos direitos liberdades e garantias, a necessidade de ser pedagógico, exemplar e coerente era especialmente exigível.

E foi aqui que os poderes do Estado falharam e falharam grosseiramente.

Nunca esteve em causa evocar o 25 de Abril ou o 1 de Maio. O que esteve em causa foi o rigor, tão claro e impositivo para atos tão íntimos como o velório de uma mãe ou públicos, como S. João ou S. António, e tanto laxismo para outros atos que incumpriam, na essência, idênticas regras de exceção.

Com que autoridade democrática se ameaça com ordem de detenção e se impõe, "em letra de lei", que não pode haver ajuntamentos, autocarros cheios e mudança de concelho e os portugueses assistem (fechados em casa) a atos públicos, participados por figuras a quem compete dar o exemplo, com flagrante violação dessas regras? E, como se não bastasse, tudo isto acompanhado por enorme arrogância autojustificativa e embrulhado em desculpas grosseiras, que insultam a inteligência dos portugueses.

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Claro que, ainda por cima, tentarem transformar esta discussão em democratas puros e impuros, "os do 25 de Abril" e "os outros" é patético e ainda gera mais indignação.

Quando foi explicada - e bem - a situação de emergência que vivemos, não recordo ter lido nenhuma feroz oposição às medidas de contenção. Os portugueses nessa altura eram qualificados como "maduros" e "responsáveis". Então o que mudou? Foram os portugueses ou foram as regras?

O que mudou foi que, de repente, a coerência, a pedagogia e o exemplo foram calcados de forma explícita e perante os nossos olhos. A nossa democracia perdeu uma parte da sua legitimidade originária. E o povo não é estúpido.

*Deputado do PSD

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