Opinião

A lente da pandemia

Marcelo Rebelo de Sousa subiu ao púlpito e começou a debitar estatísticas sanitárias relativas a uma pandemia que inunda o nosso presente de forma avassaladora. Por momentos, ele surpreendeu-me naquela noite de dia 24 de janeiro.

O pano das eleições presidenciais caíra há poucos minutos. Era o seu discurso da vitória e, no entanto, a primeira coisa que referiu poderia muito bem ter saído da boca da diretora-geral da Saúde. Esta chamada à realidade era bem necessária. Depois de horas, dias ou semanas a falar de sondagens e do sucesso ou insucesso de determinados quadrantes políticos, talvez fosse mesmo imperioso lembrar que tudo deve ser visto sob a lente da pandemia.

Há uns anos, ficou famosa a frase "há vida para além do défice". Mas haverá "vida para além da pandemia"? Tal como a pneumónica de 1918, que também teve uma terceira vaga, este vírus acabará por ficar, ele próprio, confinado. No entanto, uma crise financeira, que nos inculcou termos como "défice" e "dívida pública", só dificilmente é comparável com uma catástrofe sanitária global com repercussões económicas e sociais ainda difíceis de medir.

A extrema-direita está a crescer desmesuradamente em Portugal, gritam uns. A extrema-esquerda foi reduzida a cerca de um quinto dos votos nestas presidenciais, alegam outros. O PS reclama louros na vitória de Marcelo Rebelo de Sousa, o PSD também, não esquecendo o CDS-PP. Na verdade, tudo isto parece demasiado supérfluo quando temos centenas de mortos por semana provocados pela pandemia. Tudo parece secundário quando vemos filas de ambulâncias à porta dos hospitais e percebemos que todos os profissionais de saúde poderão ser poucos para nos acudir caso tombemos vítimas da covid-19 ou de outra infelicidade.

Em suma, a lente da pandemia não é dispensável. Saúde é o que se quer. Sem isso, nada é assim tão importante.

*Editor-executivo-adjunto

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