Opinião

A queda britânica

A descer todos os santos ajudam. O provérbio assenta como uma luva à história recente do Reino Unido.

O país era um ponto importante de atração para a mão de obra mais qualificada. As universidades inglesas rivalizavam com as melhores academias norte-americanas, as grandes e médias empresas instaladas no país eram tidas como exemplares. A "city" financeira reluzia. Mesmo para os trabalhadores menos qualificados (motoristas, empregados no setor turístico e outros), rumar a Inglaterra era sinónimo de uma vida melhor.

Como se fosse um menir a cair sobre as cabeças dos seus habitantes, a saída do Reino Unido da União Europeia (UE) concretizou-se no dia 31 de janeiro de 2020. Num primeiro momento, os súbditos de Sua Majestade Isabel II não tiveram sequer tempo para racionalizar as consequências práticas da decisão que resultava de um referendo realizado em 2016. A pandemia virou todas as atenções para o combate à covid-19.

Agora, começam a surgir os sinais de ressaca. "O brexit não está a funcionar. Venderam-nos uma perspetiva irrealista. As empresas, especialmente as pequenas e médias, estão cambaleantes. Estão a absorver custos indesejados: pagam tarifas ocultas, sofrem controlos que seriam evitáveis nas exportações, deslocalizam-se para territórios dentro da UE e, por fim, recorrem a despedimentos. As viagens escolares das crianças de e para a Europa acabaram. Demora meses para conseguir um visto. A Ciência britânica permanece fora do Horizon da UE, o maior programa científico internacional do Mundo", refere Will Hutton, colunista no jornal "The Guardian".

Como têm lembrado alguns historiadores, o país já realizou vários brexit. O soberano Henrique VIII não quis separar-se do jugo de Roma só para garantir um divórcio que nunca seria aceite pelo Papa? Ou seja, o Reino Unido pode ainda reerguer-se nos próximos séculos. A subir, nem todos os santos ajudam.

*Editor-executivo-adjunto

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