Opinião

Estados Desunidos

Os responsáveis políticos já se esqueceram do motivo pelo qual a União Europeia (UE) nasceu?

No rescaldo da Segunda Guerra Mundial, os primeiros passos visavam incentivar a cooperação económica, partindo do pressuposto de que se os países tivessem relações comerciais entre si se tornariam economicamente dependentes uns dos outros, reduzindo assim os riscos de conflitos. Ou seja, a ideia era bem simples: a integração reduziria os conflitos, armados ou comerciais.

Os sinais de que essa integração ainda tem um longo caminho pela frente multiplicaram-se nos últimos anos. Fazendo uma cronologia inversa, olhemos para o pedido de desculpa avançado ontem pelo Governo espanhol ao Executivo português relativamente às anunciadas restrições impostas a estrangeiros que pusessem pé no país vizinho. Mais do que as exigências explícitas (viajar com certificado de vacinação), ficámos todos surpreendidos com o caráter unilateral da medida.

Recuemos ao problema das vacinas. Perante efeitos adversos após a inoculação de determinada marca, as reações iam variando, inclusive no timing. Por outro lado, as manifestações de nacionalismo pontuais no plano da vacinação mostraram que a Europa não percebeu que a globalização (livre circulação) tornou os problemas mais universais e menos locais. Quanto às medidas de desconfinamento e de confinamento, os ritmos chegaram a estar completamente desfasados em momentos em que a circulação de pessoas entre países tornava óbvia a necessidade de uma coordenação.

Quando os problemas têm origem num grupo de países menos abastados, lá vêm as lições do Norte rico e virtuoso aos maus alunos sulistas, neste caso nada elitistas. Ao contrário do que preconizava Churchill, vivemos, na UE, uma configuração típica de uns Estados Desunidos da Europa. A próxima crise, sanitária ou económica, voltará a revelar esta desunião. Infelizmente.

Editor-executivo-adjunto

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