Opinião

Filhos de uma covid maior

Filhos de uma covid maior

Os menos afortunados devido a maldades da natureza ou por causa da classe social em que nasceram podem ser considerados filhos de um deus menor? Entramos aqui num terreno movediço, onde a fé se mistura com convicções pessoais.

Vem isto a propósito dos efeitos do novo coronavírus no plano social, já que os impactos ao nível da saúde são mais evidentes.

A presidente da Comissão Nacional de Proteção de Crianças e Jovens alertou para o facto de a pandemia ter agravado a situação dos mais novos. "Estamos a falar muito na área da violência física e psicológica e emocional, de negligência e abandono. As crianças estão sozinhas o dia inteiro, ninguém lhes está a prestar qualquer atenção. As crianças são muito pequenas. Todos os dias se ouvem gritos e humilhações, barulho que parece ser violência física", explicou Rosário Farmhouse.

Ninguém duvidará de que estas crianças são filhas dos menos afortunados, descendentes de quem não pode fazer teletrabalho ou que, mesmo podendo, não tem as condições ideais para o fazer no respeito pelas necessidades de cada elemento da família. São filhos de um deus menor tomados por um tsunami chamado "pandemia", termo que etimologicamente significa "de todo o povo". A verdade é que a democraticidade deste vírus existe mais no plano sanitário do que ao nível social.

O simples acesso às tecnologias tornou evidente que há descendentes de um deus menor ou, se preferirmos, filhos de uma covid maior. Inversamente, quem nasceu rico tem mais hipóteses de prolongar esse ciclo virtuoso? Um recente estudo do Centre for Economic Policy Research tem o seguinte título: "O motivo pelo qual pais ricos têm filhos ricos". Um maior investimento durante a infância e juventude leva a percursos escolares mais sólidos e a resultados visíveis ao nível da cognição. O vírus não é "de todo o povo".

*Editor-executivo-adjunto

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