Opinião

Mundo cão seria melhor

Mundo cão seria melhor

Os milhares de mortos causados pela covid-19 começam a dessensibilizar-nos. Só os números inimagináveis registados até há poucos dias pareceram funcionar como um despertador a tocar de forma incomodativa numa madrugada chuvosa e fria. O número de óbitos poderá voltar a subir nos próximos dias, apesar do rigoroso confinamento a que todos estamos sujeitos neste momento. Se assim for, sentiremos novo sobressalto nas nossas consciências.

Quando assistimos às discussões em torno das responsabilidades, tudo parece demasiado ligeiro. O número inaudito de mortos em tão curto espaço de tempo mereceria um tratamento especial no plano discursivo comparativamente a outros assuntos da República. Essa falha aplica-se à Esquerda e à Direita, ao Governo e à Oposição. A narrativa da comunicação política parece insensível ao drama humano, talvez porque nenhum dos intervenientes tenha perdido o cônjuge, o pai ou a mãe nesta guerra contra um inimigo infinitamente menor do que um habitante de Lilliput, uma ilha fictícia descrita no romance "As viagens de Gulliver".

Perante a atual pandemia, parecemos ser nós os liliputianos desta história. E mais minúsculos nos tornamos quando gerimos mal "a coisa pública" e levamos o discurso para um plano que menoriza, mesmo que inadvertidamente, o drama humano das famílias afetadas pelo novo coronavírus.

Simpatizo cada vez mais com uma frase proferida recentemente pelo consagrado escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte: "Mataria por muito poucas coisas, mas mataria quem fizesse mal a um cão. Sem qualquer remorso, com as minhas próprias mãos". De repente, tropeço num título a circular na Internet: "Cães detetam covid-19 com 94% de precisão". Pensei para mim: se falharem, não os vamos culpar; se acertarem, ninguém os vai glorificar. Eles, por seu lado, nada nos vão cobrar.

Editor-executivo-adjunto

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