Opinião

Navegar é preciso

"Navegar é preciso. Viver não é preciso". Este excerto não será estranho para os admiradores de Caetano Veloso. Temo que o Governo tenha a tentação de distorcer aquele mote para algo bem diferente: "Navegar à vista é preciso. Sobreviver [politicamente] é preciso".

Hoje, os parceiros sociais terão a oportunidade de dar oficialmente os seus contributos para o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Estar ao leme de uma nação não é tarefa fácil, ninguém o poderá negar. Por outro lado, compete aos governantes navegar em determinada direção.

Ora, se uns dizem que é melhor ir para Leste e outros para Oeste, o barco corre o risco de ficar paralisado. Vem isto a propósito de Portugal ter agora a oportunidade de receber 50 mil milhões de euros a fundo perdido, a que poderão somar-se cerca de 14,2 mil milhões de empréstimos. Esta fortuna, que vai ser distribuída até 2030, até poderá ser insuficiente. A fatura dos estragos causados pela pandemia não está fechada.

A orientação dada ao esforço financeiro feito em 2020 deixa algumas dúvidas no ar sobre a capacidade de aplicar recursos no futuro próximo. Não deixa de causar estranheza o facto de o grosso da despesa com a pandemia ter sido orientado para o apoio à economia e às famílias, enquanto que a Saúde representou 19% dos valores com impacto no défice. Ainda assim, Portugal foi o terceiro país da Zona Euro que menos gastou, proporcionalmente a cada economia, no combate à crise.

O que aí vem de novo poderá muito bem ser uma crise no setor bancário, devido à bomba relógio das moratórias sobre créditos, cenário que só avolumará o drama das mais do que previsíveis falências (e consequente desemprego), que aliás só têm sido adiadas pelas medidas de apoio à economia. Ou seja, os milhões que estão "no prelo" precisam de alguém ao leme que não perca o Norte. Caso contrário, seguir-se-á o aumento de impostos e o corte nos rendimentos.

*Editor-executivo adjunto

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