Opinião

Pessimismo troikista

Ser excessivamente otimista é uma postura que comporta riscos em plena pandemia. Não foi por acaso que tivemos um Natal a fazer lembrar o corredor da morte nas prisões dos Estados Unidos da América. Muitos viveram as alegrias da quadra não sabendo que estavam dentro de um purgatório sanitário do qual alguns já não sairiam.

A fase atual aponta, pelo contrário, para um estado de espírito pessimista. A asserção "nada voltará a ser como dantes" faz-nos recuar aos anos da troika. Nessa altura, que não foi assim há tanto tempo, acordávamos a pensar que o dia que tínhamos pela frente podia ser pior do que o anterior. Vivíamos uma depressão económica em simbiose perfeita com um pessimismo psicótico alimentado pelos governantes.

A vacinação vai acelerar bastante até ao verão. A Europa poderá mesmo alcançar imunidade coletiva contra a covid-19 em 14 de julho, disse, anteontem, o comissário europeu para o Mercado Interno, Thierry Breton. O comissário francês escolheu a data da Tomada da Bastilha como objetivo para o nível ótimo da Toma da Vacina.

Em contraste com o otimismo gaulês, a revista "Nature" avançou há dias com um cenário assustador: a imunidade de grupo pode nunca ser alcançada, nem com 70% de vacinados. "Dificilmente voltaremos ao mundo antes da pandemia", mas "só tentando" é que poderemos chegar o mais próximo possível desse objetivo, referiu o pneumologista Filipe Froes.

O neurologista e psiquiatra Viktor Frankl, que sobreviveu a Auschwitz, tem uma máxima útil quando procuramos alternativas ao otimismo e ao pessimismo: "deem-me sempre um ativismo sóbrio em vez de um fatalismo cor- -de-rosa". Albert Camus disse um dia que "a felicidade passou a ser uma atividade excêntrica". Sejamos um pouco excêntricos e ajudemos os pessimistas. Ficamos todos a ganhar.

*Editor-executivo-adjunto

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