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Opinião

Salvadores da pátria

Quando Marcelo Rebelo de Sousa recebeu em Belém três diplomas sobre o alargamento de apoios sociais - aprovados no Parlamento por partidos de Esquerda e de Direita contra a vontade do Governo -, terá pensado duas ou mais vezes sobre o destino que devia dar aos mesmos. Já sabemos que os promulgou e que o Executivo socialista recorreu ao Tribunal Constitucional.

No momento em que segurava na mão os diplomas, o presidente terá tido a noção de que não estava a julgar algo que dizia apenas respeito ao presente ou ao futuro de curto prazo.

Wittgenstein, considerado por muitos como sendo o filósofo mais influente do século XX, fez-nos uma síntese perfeita aplicável à situação que Marcelo terá vivido. Quando olhamos para um filme a passar numa televisão ou num cinema, no ecrã vemos apenas o momento presente, pelo menos se a lente aplicada for a que decorre da Física. No caso, estamos falar dos papéis ou dos ficheiros informáticos relativos aos diplomas sobre os apoios sociais. No entanto, a leitura filosófica do tempo diz-nos algo mais: aqueles textos vindos da Assembleia da República continham tanto de presente quanto de futuro. Continham também uma fatia de passado.

Ao não promulgar o alargamento dos apoios sociais, Marcelo estaria a fazer uma leitura limitada ao tempo presente. Estaria preso à visão imediatista do ecrã de TV ou de cinema. Ao promulgá-los, vislumbrou a salvação dos próximos orçamentos do Estado por via de um apoio parlamentar, sobretudo das esquerdas. Ou seja, ao manter satisfeitos comunistas e bloquistas, Marcelo fez um favor a António Costa. Ao recorrer para o Constitucional, o primeiro-ministro defendeu a estabilidade orçamental, o que só lhe dá créditos junto de Bruxelas e do eleitorado flutuante do centro que aprecia o rigor. Fica a dúvida sobre se tudo isto não terá sido secretamente concertado. Poderíamos então falar de dois salvadores da pátria.

*Editor-executivo-adjunto

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