Opinião

Servidores voluntários

Servidores voluntários

Seremos todos nós servidores voluntários, isto é, cidadãos conformados com as regras de um admirável mundo novo, como imaginou Aldous Huxley em 1932?

Este mundo do século XXI é certamente hipertecnológico e contém armadilhas. Repare-se nesta notícia mais recente sobre uma eventual quebra de dados pessoais: os principais endereços do Serviço Nacional de Saúde (SNS) têm disponibilizado dados dos cidadãos para exploração comercial da Google e de outras marcas ligadas à publicidade. O alarme soou? Acrescentemos então algo mais: a recolha de dados "também contempla áreas que o SNS.gov.pt disponibiliza para utentes, agendamento de vacinas covid-19 e solicitação de medicamentos para o VIH". A intenção de investigar o assunto, manifestada pela Comissão Nacional de Proteção de Dados, parece desproporcionalmente diminuta.

Huxley transporta-nos até 2540. Entramos num mundo em que a reprodução humana é feita em provetas e em que o Governo tudo domina através da manipulação psicológica desde tenra idade. Não chegamos lá ainda e 2540 está demasiado distante para fazermos profecias. Um seu aluno de Francês, chamado George Orwell, lembrou-se de escrever em 1949 uma obra que descreve também um mundo estranho. Tudo se passaria em 1984. O Estado, dotado de uma polícia do pensamento, dominaria e tudo saberia sobre todos nós.

O mundo atual está mais próximo do que foi imaginado pelo aluno do que pelo professor. No entanto, Orwell enganou-se em algo fundamental: o Estado está longe de ser o núcleo monopolista das informações sobre todos nós. Veja-se o que revelou o escândalo Facebook-Cambridge Analytica: dados de 87 milhões de utilizadores foram abusivamente usados. O Google acabou de me mandar um relatório sobre os sítios em que estive ao longo do último mês. Nem eu próprio me lembrava. Um "grande irmão" preenche-me assim as falhas de memória. Servilmente, desvalorizo o risco e agradeço o lembrete.

Editor-executivo-adjunto

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