Opinião

Luto e censura

1. O luto - Este "jardim à beira-mar plantado" transformou-se de súbito num pasto de chamas. Persistiu a paisagem, desolada, das árvores calcinadas, resistiram os edifícios em ruínas - casas, oficinas, máquinas e armazéns -, enterraram-se os mortos e ficou a dor inconsolável dos que sobreviveram. Nos últimos 30 anos, as comunicações desenvolveram-se prodigiosamente. Pelas novas estradas, rotundas e variantes, circula-se decerto com mais rapidez, mais segurança e conforto mas acelerou-se também a desertificação humana, a degradação económica e a irrelevância política do interior do país que não cessa de perder gente e de fechar escolas, juntas de freguesia, repartições de finanças, tribunais, dependências bancárias!

2. Os antecedentes - O êxodo começou nos anos 60. Os primeiros a partir foram os homens, depois partiram as mulheres, os filhos, os vizinhos. Os campos ficaram por lavrar e nem gente sobrou para colher o que restava nas searas, nos pomares, nas aldeias abandonadas. Vinte anos mais tarde chegaram as ajudas para a adesão e a integração europeia mas a sangria humana do interior do país prosseguiu e, com ela, o crescimento do eucaliptal acelerou. Num belo artigo publicado na "Notícias Magazine" do passado domingo - "Há 28 anos um povo lutou contra os eucaliptos. E a terra nunca mais ardeu" - Ricardo Rodrigues recorda a epopeia que se viveu na Veiga do Lila, em Valpaços, há mais de 28 anos, e entrevista os protagonistas dessa memorável luta. No dia 31 de março de 1989, "às duas da tarde o sino começou a tocar a rebate. Oito centenas de vozes entoavam "oliveiras sim, eucaliptos não" e largaram por um caminho de terra batida para a Quinta do Ermeiro". Ali, 200 hectares de olival tinham sido substituídos por eucaliptos, plantados havia pouco por uma subsidiária da Soporcel, beneficiando do financiamento "a fundo perdido" da CEE, promovido pelo Ministério da Agricultura. A população, contudo, não se resignou. De entre as aldeias vizinhas, 800 pessoas acorreram ao toque a rebate e arrancaram à mão as árvores requeridas pela política de expansão da indústria florescente da celulose. A forte concentração de forças policiais, incluindo o Corpo de Intervenção, não demoveu os populares. Nem uma carga a cavalo surtiu efeito porque as bestas tropeçavam nos socalcos cavados pela Soporcel para plantar os eucaliptos. Entretanto, um agricultor de uma aldeia vizinha, José Oliveira, é preso pela Guarda mas a população ameaça que "não arreda pé" enquanto o não libertarem e vai conseguir, ao cair da noite.

3. A censura - Nessa data remota era primeiro-ministro, Aníbal Cavaco Silva. Quem tutelava a pasta da Agricultura era Álvaro Barreto e na Administração Interna mandava José Silveira Godinho. A mais recente extensão do eucaliptal ocorreu apenas há 5 anos, em 2012, com Pedro Passos Coelho a chefiar o Governo, Assunção Cristas à frente da pasta da Agricultura e, na secretaria de Estado das Florestas, Daniel Campelo. Ao longo dos últimos 28 anos sucederam e alternaram no Governo ministros do PS, do PSD, do CDS e independentes. É tempo de mudar as políticas.

4. A lição - "Às seis da tarde, depois de José Oliveira ser libertado, um vale inteiro voltou pelo mesmo caminho e juntou-se no principal largo de Veiga do Lila. Mataram-se dois borregos e um leitão, abriram-se presuntos e deitaram-se alheiras à brasa, houve até quem trouxesse uma pipa de vinho. A festa durou noite dentro e foi maior do que qualquer romaria de Santa Bárbara". E Ricardo Rodrigues conclui, por fim: "Hoje, o Ermeiro é terra de nogueiras, amendoeiras, oliveiras e pinho. Nunca ardeu".

* DEPUTADO E PROFESSOR DE DIREITO CONSTITUCIONAL

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG