Opinião

2020 - Trump, covid, democracia

2020 - Trump, covid, democracia

Foi violento o ano que agora finda, marcado pela guerra, a interminável pandemia e a afirmação despudorada da extrema-direita autoritária. Foi tudo tão mau e perturbador que nem parece que peque por otimismo admitir que 2021 nos possa trazer algum alívio.

Em prejuízo da paz e da segurança mundial, acelerou-se o gradual desmantelamento da ordem internacional naquele que iria ser o último ano do mandato do presidente dos Estados Unidos da América. Acumulam-se os sinais de alarme destes perversos desenvolvimentos. Chama-se a atenção para a terrível crise humanitária que prossegue no Iémen, para o contínuo agravamento da tragédia palestiniana e o sacrifício do direito à autodeterminação do povo sarauí, usado como moeda de troca numa estratégia de divisão do mundo árabe e de contínua hostilização da República iraniana. No Pacífico, a abertura do diálogo com a Coreia do Norte redundou na comédia inconsequente que se adivinhava, em simultâneo com as múltiplas querelas que alimentam a tensão com a grande rival, a República Popular da China. Até onde iria, enfim, a fanfarronice belicosa de Donald Trump, acaso tivesse ganho as eleições presidenciais de novembro?

Em fevereiro, chegaram-nos da Lombardia, a norte da Itália, os primeiros testemunhos da entrada do vírus na Europa. Não imaginávamos que quase um ano mais tarde as nossas vidas continuariam severamente condicionadas por tão drásticos confinamentos. Em apenas 10 meses, já vamos a caminho da sétima declaração do estado de emergência e, assim mesmo, vamos realizar eleições nacionais em que um dos candidatos é o titular da autoridade constitucional para as declarar: o presidente da República. A circunstância de as restrições impostas serem justificadas com argumentos científicos não lhes diminui a gravidade nem as torna menos penosas. Em geral, é certo, o seu acatamento tem sido voluntário e até exemplar. Todavia, entre a responsabilidade cívica e o medo esconde-se o segredo dessa exemplaridade. Pelo que se sabe, a singularidade deste vírus não reside sobretudo no mal que inflige, caso a caso, mas sim na velocidade a que o contágio se propaga! Tão veloz que, uma vez descontrolado, bloqueia os serviços de saúde, comprometendo o socorro de quem precisa. Neste sentido, a ameaça que nos afeta é, até esse ponto, mera realidade virtual... o que constitui motivo para séria ponderação num mundo dominado pelas novas tecnologias que destronaram os meios de comunicação clássicos do seu papel mediador,

Tudo o que, por fim, nos convida a refletir sobre as causas do sucesso do novo populismo fascizante que grassa pelas redes sociais e se infiltra nas instituições democráticas, convocando-nos para a urgência de o combater.

*Deputado e professor de Direito Constitucional

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