Opinião

A farsa

É um eficaz lenitivo para as amarguras do presente e talvez lá encontre uma chave para descodificar as últimas piruetas desta atabalhoada governação. Vá ao cinema e divirta-se com "A melhor oferta", último filme do realizador italiano Giuseppe Tornatore.

O negócio de Virgil Oldman, antiquário famoso, é a autenticidade das obras de arte que ele mesmo certifica, disputadas pela "melhor oferta" nos seus concorridos leilões. Giuseppe Tornatore não ensaia a desconstrução das clássicas contraposições entre "falsidade" e "autenticidade", entre "cópia" e "original". Apenas pondera a relatividade dos conceitos, a irresistível tentação de os manipular, o pântano das aparências onde se acaba por confundir a verdade com a ilusão - no cinema, na arte, na vida. Vítima dos ardis que ele próprio engendrou, o antiquário, sentado à mesa de um café de Praga, no plano final, ainda aguarda o cumprimento da promessa de "amor autêntico" por que se perdeu!

Tanta paixão e otimismo não são capazes de gerar, seguramente, os nossos governantes. O Governo ainda não se demitiu nem foi demitido, não aceitava sequer remodelar-se, há bem pouco tempo, nunca reconheceu os seus inumeráveis fracassos nem se propôs mudar as suas políticas. Porém, passo a passo, a pretextos diversos, foram caindo ministros e secretários de Estado que foram sendo substituídos por novos ministros e secretários de Estado que até poucos dias antes da cerimónia solene da tomada de posse, ainda escreviam coisas muito críticas e ácidas contra essa mesma governação a que repentinamente se converteram, sem o esforço de exibir algum arrependimento nem sequer de submeter mera nota justificativa... Pelo contrário, animados pelo entusiasmo dos recém-convertidos, novos e velhos ministros e secretários de Estado multiplicam apelos patéticos a impossíveis consensos, afirmam um genuíno empenhamento de lançar "pontes pessoais" para os membros da Oposição, anunciam "planos de crescimento económico" com novos fundos que pareciam estar esquecidos e com descarada ingenuidade proclamam-se abertos aos contributos da Oposição para o desenho dos novos "pacotes fiscais" que vão salvar a economia!

Quando a Oposição denunciava as políticas de austeridade que levaram as empresas à falência e continuam a mandar milhares de trabalhadores para o desemprego, destruindo a economia e empobrecendo o país, o Governo de Passos Coelho, do amigo Relvas e do poderoso Gaspar, com a cumplicidade da maioria parlamentar e da presidência, respondia com o aumento dos impostos, os cortes dos salários e das pensões, e pedia novos sacrifícios que afirmava indispensáveis para satisfazer os credores e reconquistar a credibilidade internacional, incontornáveis pressupostos do desejado "regresso aos mercados" e à prosperidade perdida. Paradoxalmente, embora cada vez mais distante dos objetivos que se propunha atingir, somando irrisórias poupanças na despesa pública à custa de medidas extraordinárias e ilegais, depois de exorcizar os demónios do poder judicial, veio o Governo e o sempre "remodelável" ministro da Economia anunciar esta semana novos créditos para as empresas, um novo banco de fomento para incentivar o investimento, o ansiado alívio fiscal.

Uma estranha opacidade tomou conta do nosso regime democrático onde a política degenerou na mais tosca falsificação. Os cenários desta farsa mudam ao sabor das conveniências, substituem-se à velocidade da premência de cada conjuntura, como um autómato comandado de Berlim ou Bruxelas, de Belém ou São Bento, numa democracia sem cidadãos, sem respeito pelos representados, sem causa, sem motivo, imaculada e sem destino. O palácio renascentista - com a sua herdeira invisível, as peças do autómato habilmente reconstruído, o catálogo do espólio já pronto para o leilão - não era afinal mais que um armazém alugado a uma falsa produtora cinematográfica. Uma metáfora do próprio filme de Tornatore senão da própria Itália de hoje ou deste "contrafeito" Portugal.

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