Opinião

A Grécia e o "mea culpa" do FMI

A Grécia e o "mea culpa" do FMI

Em conferência de Imprensa realizada em Washington na madrugada de ontem, o Fundo Monetário Internacional apresentou o seu relatório intercalar sobre o plano de resgate da Grécia, acordado em 2010 com a União Europeia e o Banco Central Europeu. O documento contempla os três anos de aplicação controversa do programa de resgate da dívida soberana de um país que enfrenta pelo quinto ano consecutivo uma profunda recessão económica. O FMI reconheceu pela primeira vez, oficiosamente, os graves erros cometidos, baseado num diagnóstico extenso, objetivo e fundamentado, explicado aos jornalistas por Poul Thomsen, o chefe da missão de resgate na Grécia. A isto se reconduziria afinal a principal novidade apresentada. No restante, as revelações feitas eram já bem conhecidas de todos. Foram muitos, aliás, os que denunciaram e oportunamente advertiram para a previsibilidade dos resultados catastróficos agora demonstrados e finalmente reconhecidos.

O total de desempregados e inativos na Grécia ultrapassa largamente o número daqueles que têm um trabalho efetivo. Como noutros países, o desemprego afeta sobretudo os jovens e as mulheres. O programa de resgate previa que a taxa de desemprego atingisse os 15%, em 2012, mas ultrapassou os 25% e continuou a crescer. O que não cresce, pelo contrário, é a economia. O FMI teve de rever todas as previsões sobre a retração da atividade económica e admitiu o seu mais grave fracasso: a enorme amplitude da destruição da economia grega em consequência das medidas de austeridade adotadas tornou insustentável o pagamento da dívida, o que deveria ter sido prevenido logo no primeiro "memorando de entendimento", em 2010. Admitiu também que tinham manipulado as fórmulas de cálculo e violado as regras em uso na instituição! E prometeu que nunca mais voltariam a cometer semelhante erro... Afinal, perguntarão os gregos, para que serviram tantos sacrifícios? Apesar da recessão profunda, da queda dos salários e do flagelo do desemprego, os depósitos bancários diminuíram 30%, o sistema financeiro continua desequilibrado, a confiança dos mercados não foi recuperada, os ligeiros ganhos de produtividade são meramente conjunturais, as reformas estruturais estão bloqueadas e o excesso da dívida pública reclama seguramente uma nova reestruturação.

Em contraste com o arrependimento manifestado pelo seu colega do FMI, o porta-voz da Comissão Europeia, Simon O'Connor, declarava pouco horas depois em Bruxelas que a crise grega os apanhou desprevenidos e que foram ultrapassados por circunstâncias alheias à sua vontade... Não tinha, enfim, quaisquer culpas a admitir! Invocando o documento do FMI, contrapôs que, apesar de tudo, os dois principais objetivos teriam sido atingidos: evitar que a Grécia abandonasse a moeda única e impedir o alastramento do "contágio" a outros estados da União Europeia. Tamanha "candura" não foi, todavia, partilhada pelo FMI que ainda apontou o dedo à indefinição das instituições da União, condenou o comportamento contraditório de alguns estados-membros e deplorou até as deficiências de articulação experimentadas no funcionamento interno da própria troika (Ian Trainer e Helena Smith - "Brussels fights back in Greek crisis blame game" - "The Guardian", 6 de junho de 2013).

Este exercício de autocrítica do FMI, se bem que peque por tardio, é um indício claro da inevitabilidade da mudança destas políticas ruinosas que transformaram os gregos no bode expiatório de todas as fraquezas da União Europeia para encobrir egoísmos vários, vergonhosas cobardias e uma confrangedora incompetência. Por isso, a admissão, pelo porta-voz do comissário Olli Rehn, de que isto foi "um processo de aprendizagem", não exprime remorso nem humildade mas tão-só o mais refinado cinismo.

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