O Jogo ao Vivo

Opinião

Debater o quê?

O debate entre António Costa e Rui Rio foi decepcionante para certos observadores.

Desde logo, para os que acreditavam que a campanha seria uma passeata eleitoral tranquila, bem contados os sucessos de uma governação que deixou a Direita desnorteada. Mas também para aqueles que esperavam o definitivo esmagamento do atual líder do PSD, o qual, sobretudo no interior do seu próprio partido, se tem encontrado sob o fogo permanente dos saudosistas da frustrada aventura "ultraliberal" para que tentaram arrastar o país à boleia da troika e amparados pela ortodoxia orçamental europeia. É verdade que Rui Rio surpreendeu, sobretudo, aqueles que penosamente condescendem com o seu sotaque nortenho e a sua frontalidade. É verdade que António Costa não dececionou, apesar da rigidez do formato de moderação do debate que lhes foi imposto. E por isso ficaram excluídas da discussão questões fundamentais que mereciam melhor análise e demorada ponderação: o futuro da União Europeia - em vésperas de eventual consumação do Brexit - a descentralização, a regionalização, a justiça e outras reformas do sistema político capazes de responder à crise global da cidadania democrática.

No Reino Unido, o populista Boris Johnson ameaça despudoradamente a mais antiga democracia contemporânea para tentar, a qualquer custo, tirar o seu país da União Europeia. O próprio David Cameron, autor dessa aventura insensata, admitiu, tardiamente, que é inevitável realizar um segundo referendo, face à dramática experiência de três anos de negociação frustrada. Depois da Grécia ter evitado a expulsão da União Monetária, no último instante, e enquanto os britânicos se aguentam na corda bamba, a Polónia e a Hungria permanecem impunes na União Europeia, apesar do nacionalismo xenófobo, dos atropelos à independência judicial e violações flagrantes de direitos fundamentais consumadas ostensivamente pelos respetivos governos que, por isso, colhem a simpatia da extrema-direita ainda minoritária na França, na Alemanha, na Itália ou na Espanha.

O que pensa Rui Rio das políticas seguidas nesses países por governantes filiados no mesmo Partido Popular de que o PSD faz parte? O que pensa das políticas de imigração que eles praticam? Porque não se falou da união fiscal e do orçamento da União? Ou do "modo de vida europeu" que vai agora ter pelouro próprio na Comissão Europeia?... Porque ninguém lhes perguntou? Foi pena! Estas questões são decisivas para enfrentarmos com sucesso a perversidade dos novos processos de formação da opinião pública, a barbárie discursiva dos novos líderes - das Filipinas ao Brasil - a privatização da política externa - Trump informava ontem os jornalistas de que a opção de guerra contra o Irão depende de quanto os sauditas estejam dispostos a pagar! - enfim, nem uma pequena amostra do quadro clínico da crise global das democracias aflorou nestes debates. É pena.

* DEPUTADO E PROFESSOR DE DIREITO CONSTITUCIONAL