Opinião

Demagogia e populismo

O súbito regresso de Donald Trump à "Casa Branca" - agora infestada pela chegada do presidente - tem sido objeto de comentários diversos.

A generalidade dos críticos colocam a tónica na falta de sentido da responsabilidade de estado que ele exibiu ao retirar a máscara, à entrada da residência oficial, para se dirigir aos seus adeptos e, num assomo de narcisismo patológico, anunciar que está melhorzinho e que, porventura, até já alcançou a imunidade contra a covid-19, o mesmo vírus que matou até agora mais de duas centenas de milhares dos seus compatriotas, sobretudo, entre aqueles que não têm acesso ao tratamento preferencial que o sistema de saúde norte-americano dispensa ao seu presidente e a outros afortunados.

É imperdoável que uma figura pública com a notoriedade do presidente do EUA ofereça exemplo tão leviano, assim comprometendo as recomendações gerais de prudência e cuidados que ele próprio não ousa explicitamente contrariar. O que não pode escapar, porém, aos comentadores e, sobretudo, ao opositor democrático que concorre às eleições presidenciais, é que o comportamento recente e as declarações debitadas por Donald Trump não são próprias de um candidato vencedor mas sim de alguém que se procura vitimizar e que sistematicamente desvaloriza o ato eleitoral onde será julgado pelo seu desempenho, antecipando uma derrota que só sabe contrariar agarrando-se ao terreno populista que com desvelo cultivou!

De facto, Donald Trump, Jaír Bolsonaro e Boris Johnson são os três mais notórios arautos desta corrente política que combina as receitas radicais da destruição criadora neoliberal com a mobilização e a manipulação emocional das suas vítimas: os pobres e os marginais! Eles bem tentaram ignorar ou desvalorizar o perigo da pandemia porque sabiam que ela iria inevitavelmente demonstrar a importância do estado e dos serviços públicos que não se cansam de acusar como sendo a causa principal de todos os males que afligem a humanidade. A verdade é que esta manobra não lhes correu nada bem e eles próprios se acharam contaminados e obrigados a novos malabarismos para disfarçar as consequências criminosas da sua indiferença cínica. É por isso essencial desmascará-los, denunciar as suas contradições flagrantes, os seus propósitos inconfessáveis de demolição raivosa do sistema democrático e da convivência civilizada que ele permitiu construir. A "selva" a que gostariam de nos fazer regressar nada tem de atraente, desde logo, quando se avaliam as cifras brutais das vítimas da pandemia nos países que "desgovernaram". Mas não basta a denúncia, fácil e demagógica... Na demagogia são eles os mestres! É preciso contrapor alternativas audaciosas e assumir uma vontade real de as concretizar.

*Deputado e professor de Direito Constitucional

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