Opinião

Entre o passado e o futuro

Entre o passado e o futuro

As gerações mais jovens, com uma perceção da passagem das horas e dos dias bem mais lenta, irão lembrar estes 12 meses de sucessivos estados de exceção como se fosse uma eternidade.

A distância, a máscara, o medo do outro - possível agente de transmissão da doença e da morte - irão marcá-los para sempre. E nem os mais velhos escaparão a esta marca funesta. A pandemia, porém, é apenas o sinal mais recente da iminência de uma mudança irreversível. Antes dela, foi a vez da crise financeira internacional de 2008/2009.

O profeta da mudança irreversível foi, então, Pedro Passos Coelho, que até pretendia "ir além da troika" e prometeu a nossa redenção à custa da fome e da pobreza, expiação fatal das "gorduras do Estado" acumuladas pelos preguiçosos povos do Sul, sinal do fim dos tempos das "vacas gordas", na linguagem de um triste antecessor. O terceiro sinal foi a guerra contra o terrorismo internacional organizado, anunciada no cenário espetacular das ruínas fumegantes das torres gémeas de Nova Iorque.

E, deste modo, as trincheiras da guerra convencional e as emboscadas de guerrilha transferiram-se para o interior das sociedades democráticas. A crise financeira de 2008/2009 impôs a vontade anónima dos mercados financeiros ao nosso destino coletivo. Agora, a pandemia ameaça a subsistência de culturas, comportamentos e atitudes ancestrais. "Nada será como dantes", avisam profetas de diversas confissões e desencontrados propósitos.

"Recuperação e Resiliência", diz o primeiro-ministro, com "os olhos postos no futuro". E ele sabe do que fala porque foi um dos promotores desta viragem. Em boa hora, a Europa acordou da deriva neoliberal que quase a condenou a um inevitável processo de desagregação e, ousando assumir medidas financeiras inéditas, reconduziu a solidariedade ao lugar central que lhe tinham destinado os seus pais fundadores, cansados da ruína e destruição das duas guerras mundiais que marcaram a primeira metade do século passado.

A crise profunda que atravessam as democracias em todo Mundo não se resolverá, porém, com os remédios financeiros que lhe procuram dar resposta imediata. Além da pandemia, persiste a profunda crise da representação democrática que a antecedeu, a acompanha e seguramente lhe sucederá. O dilema que nos interpela é extraordinariamente simples.

De um lado, os neoliberais e tecnocratas apologistas da desregulação global para quem as guerras são oportunidade de negócio, que desprezam as alterações climáticas e ponderam com receio e desdém a soberania popular. Do outro, a convivência livre, pacífica e civilizada entre os povos, o que apenas podemos alcançar com mais igualdade, transparência, participação e liberdade na reforma das nossas democracias.

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*Deputado e professor de Direito Constitucional

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