Opinião

"Ich bin ein berliner"

"Ich bin ein berliner"

Foi seguramente um dos seus mais célebres discursos! No verão de 1963, John Kennedy visitava Berlim, a convite de Willy Brandt, então Presidente da Câmara. Perante o muro que irrompia pelo meio da cidade ainda sob a ocupação militar das potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial - e que a iria dividir durante três longas décadas - Kennedy encontrou a fórmula exata para garantir a sua solidariedade, na reivindicação simbólica de uma cidadania comum: "eu sou um berlinense".

Kennedy socorre-se do paralelo com o estatuto de cidadão de Roma, há dois mil anos - patamar supremo de reconhecimento e dignidade. E proclama a condição cívica de "berlinense", hoje, como um superior "privilégio" de "todos os homens livres".

Das atribulações suscitadas por este processo gradual e multifacetado de crescente "desumanização", tenho procurado dar conta nas minhas últimas crónicas. Com a invenção da nova figura jurídica do "combatente inimigo", George W. Bush tentou aniquilar todas as aquisições do "direito da guerra" que durante mais de um século tinham oferecido alguma proteção às forças envolvidas em conflitos armados e aos prisioneiros de guerra. Os resultados estão patentes, em Abu Ghraib ou em Guantánamo - penhor de uma promessa ainda por cumprir do atual Presidente dos Estados Unidos da América. Supremo cinismo, em nome do "dever de ingerência por razões humanitárias", na transição do milénio, tentou-se justificar a invasão do Iraque, como via indispensável à destituição de Saddam e à imposição da "democracia", o que precocemente seria desmentido pelo cortejo de horrores que continuamos a testemunhar. A "declaração de guerra contra o terrorismo" logo se iria encarregar de abolir todas as fronteiras, subordinando o "estatuto de cidadão" à categoria desqualificada de "suspeito de terrorismo". Os interesses sem rosto dos mercados anónimos prevalecem sobre os direitos dos "cidadãos contribuintes". E assim, em nome da "luta contra o terrorismo" ou da "vontade dos mercados", em nome do "uso legítimo da força" ou dos credores das "dívidas soberanas", esmagaram-se os direitos e as liberdades individuais, suprimiu-se a vontade democrática, a liberdade dos povos e a soberania dos estados. A civilização não parece ser obra da humanidade. Antes parece mais certo admitir que a humanidade é o produto da civilização. Não foram os judeus, tal como os ciganos, "legalmente" destituídos da "cidadania", antes de serem condenados ao extermínio nos campos de concentração nazis?

As atrocidades cometidas na Faixa de Gaza são de uma violência inédita. Uma ferocidade que apenas se tornou possível pela expectativa da condescendência cúmplice de uma comunidade internacional que se resignou à banalização do horror. O Governo do Estado de Israel alega que os seus atos foram "razoáveis" e "proporcionados", como se houvesse alguma aritmética que pudesse dar conta dos bombardeamentos de escolas, hospitais e centrais elétricas, da matança indiscriminada de inocentes e de crianças. Para que tais conceitos preservem algum sentido e utilidade, é indispensável que o Tribunal Penal Internacional sobre eles se pronuncie e estabeleça critérios e limites para a sua aplicação.

Abdullah Youssef Daraji era uma criança com 3 anos de idade. É uma das 373 vítimas mortais cujo nome, a organização, "Save the Children", decidiu inscrever nas páginas da imprensa internacional, com um apelo registado pelo jornal "Público": - "Ajudem-nos a garantir que são as últimas".

A cidadania garante direitos e impõe responsabilidades no relacionamento entre iguais, sejam estados ou cidadãos. Só haverá paz duradoura quando Israel e a Palestina forem dois estados independentes e soberanos. Que o precário cessar-fogo agora conseguido possa começar a abrir novos caminhos.

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