Opinião

Batem leve, levemente como quem chama por mim...

São já quase duas mil crianças - os filhos de imigrantes apanhados pela polícia ao tentar atravessar a fronteira - que foram separadas à força das suas famílias e confinadas a jaulas improvisadas em edifícios de antigos armazéns...

Nenhum presidente americano se atrevera até hoje a lançar mão de medidas tão drásticas e brutais como a "política de tolerância zero" que, apesar da indignação de largos setores da sociedade americana, Donald Trump pretende impor a qualquer custo. Muitos democratas e alguns republicanos, um pastor evangélico apoiante de Trump e até as mulheres de antigos presidentes dos EUA - de Bush e de Carter - manifestaram com desassombro a sua indignação.

Julie Hirschfeld Davis e Michael D. Shear, escrevem no "New York Times" de 17 de junho, que os ex-presidentes George W. Bush e Barack Obama consideraram "desumana e politicamente perigosa, a ideia de arrancar crianças em lágrimas dos braços dos seus pais". Esclarecem também que a lei "não obriga que alguém que tente atravessar ilegalmente a fronteira tenha de ser separado dos seus filhos". Porém, a nova "política de tolerância zero" determina que os imigrantes ilegais sejam presos como criminosos. Do que resulta que os seus filhos passam a ser considerados como, "menores estrangeiros não acompanhados" e, como tais, separados da família e colocados sob tutela policial. Sejam refugiados ou candidatos à concessão de asilo, pouco importa! São todos classificados como imigrantes ilegais, são presos imediatamente e submetidos a investigação criminal!

Jeff Sessions, ministro da justiça de Trump, invoca o texto bíblico na tentativa de justificar o escândalo, e até cita S. Paulo para exigir cega obediência ao poder constituído. Mais pertinente seria invocar o Velho Testamento e a prudência do rei Salomão. Perante duas mulheres que disputavam a maternidade de um recém-nascido, Salomão, astuciosamente, sugere que a criança seja cortada ao meio para que assim pudesse ser repartida entre ambas as litigantes. Logo a verdadeira mãe abdica do seu direito, por amor ao filho... e o juiz reconhece, por esse gesto, qual delas é a verdadeira mãe.

A sabedoria dos juízes bíblicos não comove os dirigentes políticos racistas e xenófobos que, na Europa e no Mundo, se inspiram e se regozijam com a violência desumana da extrema-direita que conquistou o poder com Donald Trump, nos EUA. Nem é por ignorância ou negligência que fazem o que fazem. É bem mais perverso e assustador! Com o mesmo cinismo dos engenheiros do Holocausto, decidiram arrancar os filhos dos braços das mães por acharem que é um instrumento político eficaz para a dissuasão dos fluxos migratórios... que tanto incomodam os seus eleitores.

Resta-nos procurar algum conforto e esperança nos versos de Augusto Gil (Balada da Neve, Luar de Janeiro,1909):

(...) Fico olhando esses sinais da pobre gente que avança, e noto, por entre os mais, os traços miniaturais duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos... a neve deixa inda vê-los, primeiro, bem definidos, depois, em sulcos compridos, porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador sofra tormentos, enfim. Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor?!... Porque padecem assim?!...

DEPUTADO E PROFESSOR DE DIREITO CONSTITUCIONAL