Opinião

O antigo regime e a revolução

Uma impiedade difusa foi-se apoderando do Mundo e contamina o ar que respiramos. É um sentimento atroz mas não há modo de contrariar tão perversa tendência. Onde essa crueldade impiedosa se revela com mais exuberância é, desde logo, na Comunicação Social. Não há tragédia que não mereça a abertura do telejornal, fotografia na primeira página do diário ou na capa da revista, multiplicação de comentários nas redes sociais, reportagem exaustiva em busca de um qualquer testemunho, de preferência, íntimo, doloroso, identificável.

A catástrofe, qualquer que seja, tem de ser percebida em todas as dimensões que propiciar, com imagens das vítimas, capturadas de distintas perspetivas, ângulos e distâncias. Normais e distorcidas. A cores e a preto e branco. Depois, as autoridades oficiais, os especialistas de turno e os curiosos locais comentam a ocorrência de forma a que cada espectador se assuma como participante e possa escolher o seu "próprio" ponto de vista acerca do ocorrido. E o exercício dura até à exaustão para ciclicamente ser evocado, repetido ou renovado, logo, amanhã ou no ano seguinte. Temos o ciclo dos fogos, na Califórnia, na Suécia, na Grécia ou em Monchique. Estes, com as inundações e as tempestades dos trópicos, formam o ciclo das catástrofes sazonais mas a natureza oferece também oportunidades alheias a periodicidades certas, como os terramotos e as erupções vulcânicas, no México ou na Indonésia.

Há sempre alguma desgraça com causa humana e um repórter disponível para enviar a qualquer hora e a qualquer lado, seja para um acidente por flagrante incúria, numa gruta da Tailândia, seja um desastre de aviação ou mais um naufrágio no Mediterrâneo. Entretanto, os repórteres de guerra passaram à história, arrastados pelo declínio das guerras convencionais... e, sobretudo, porque é agora muito mais apelativo e eficaz na disputa pela captação de audiências, a cobertura de atentados terroristas ou a exposição da ruína urbana provocada pelos bombardeamentos ditos de retaliação, na Síria ou no Afeganistão.

Ao contrário dos auto de fé encenados pelo Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, a exibição contemporânea do horror não está ao serviço de uma religião específica. Tal como o circo, no Coliseu da Roma imperial, conjuga com o entretenimento, o culto do esplendor da força. Consumida em estado de distração, a brutalidade apaga sentimentos de compaixão e desfaz laços de solidariedade.

A informação tornou-se um mero condimento do espetáculo. Os telejornais seguem o modelo dos "reality shows". Exibe-se, demorada e repetidamente, as feridas das vítimas, o sangue, as cinzas, as casas esventradas pelo fogo ou pelas bombas, as lágrimas que correm dos olhos de quem tudo perdeu, o rosto desfigurado dos sobreviventes, os cadáveres. A seguir, destacam-se os "crimes comuns", mais algum escândalo político ou financeiro e, por fim, no bloco internacional, reportam-se as obscenidades brutais diariamente debitadas pelo presidente dos Estados Unidos da América, por governantes austríacos, italianos, húngaros ou polacos e outras personagens congéneres da extrema-direita europeia.

De facto, a eleição de Donald Trump e a ascensão galopante dos neofascistas europeus patrocinados pelo seu incansável ideólogo, Steve Bannon, são causa e, simultaneamente, resultado dessa promíscua inoculação que baralha a realidade com a ficção, a informação com o espetáculo, e promove a banalização do horror. Os confrontos violentos da guerra fria, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, eram travados em torno de valores comuns: a liberdade, a igualdade, a dignidade humana, o direito dos povos à autodeterminação. Hoje, o ódio e a violência dispensam qualquer ideia ou projeto de sociedade. A civilização das luzes é a barricada que nos resta, entre "o antigo regime e a revolução", como explicava, em 1856, Alexis de Tocqueville.

* DEPUTADO E PROFESSOR DE DIREITO CONSTITUCIONAL