Opinião

Crise da crítica

Foram surpreendentes as reações suscitadas pelas críticas contidas no relatório divulgado a semana passada pelo Fundo Monetário Internacional em que este admite ter cometido erros graves no programa de resgate financeiro da Grécia, a começar pelo seu desenho original - de maio de 2010 - e que desfere acusações severas à condução pela União Europeia do combate à crise do euro, que abordei nesta coluna na passada sexta-feira. A Comissão Europeia, disfarçando o embaraço inicial, iria rejeitar com veemência as críticas do FMI ao passo que o Banco Central Europeu optava por ignorá-las.

O Governo grego, menos de uma semana depois de ter manifestado a sua satisfação com o "mea culpa" do FMI - que desaconselhava, mesmo com prejuízo das reformas estruturais, novas medidas de austeridade - anunciou de surpresa o fecho da televisão e da rádio públicas, mandando para o desemprego cerca de 2700 trabalhadores. A decisão anunciada pelo primeiro-ministro grego, Antonis Samaras, foi logo denunciada pelos partidos da coligação governante e desencadeou uma greve geral, somando generalizados testemunhos de solidariedade por toda a Europa. Ao ponto de a Comissão Europeia se sentir obrigada a esclarecer publicamente que tal medida não constava sequer das recomendações feitas pela troika!

No mesmo dia, o FMI dava por concluída a sétima avaliação do programa de resgate da dívida portuguesa e advertia novamente a Europa quanto à forma como tem gerido a crise, realçava a importância de alargar os prazos de amortização para não comprometer a sustentabilidade da dívida soberana e recomendava também ao Governo português a aceleração das reformas estruturais e da consolidação orçamental, sem esquecer a necessidade de apoiar a criação de emprego e "facilitar a recuperação económica". Enfim, orientações alinhadas com preocupações expressas pelos nossos atuais governantes e pelo Presidente que os suporta. É por isso surpreendente que Aníbal Cavaco Silva, de visita ao Parlamento Europeu, em Estrasburgo, tenha escolhido precisamente esta oportunidade para opinar sobre a conveniência de excluir o FMI da troika: "É tempo de o desenho dos programas de ajustamento, a sua avaliação e acompanhamento serem feitos por membros das instituições europeias". Porque, sustentou, os "objetivos e a visão" do FMI são "diferentes". "O objetivo do FMI está muito voltado para a estabilização financeira, na União, nós temos objetivos de desenvolvimento harmonioso, de coesão e de crescimento económico".

Por seu lado, o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, de visita à Feira Nacional da Agricultura, em Santarém, lamentava "que as instituições da troika se coloquem no plano público com divergências tão grandes. Porque isso gera, evidentemente, instabilidade e incerteza nas pessoas, em particular na Grécia, mas também nos mercados de uma maneira geral". "É claro que ajudaria que as instituições da troika evitassem este espetáculo público de estarem a dar motivos que podem suscitar a desconfiança dos mercados". Enjoa tanto "decoro" e subserviência quando uma pequena oportunidade se oferecia para reclamar as mudanças que tardam nos centros de decisão europeus à custa, com "juros de mora", dos periféricos do Sul.

O que haverá de comum entre Antonis Samaras, Pedro Passos Coelho e Aníbal Cavaco Silva? Será uma ideologia? Aquela que hoje define as políticas europeias, que se justifica com a globalização económica e satisfaz os interesses da finança internacional? Provavelmente, não. Dessa ideologia sem rosto nem bandeira terão consciência os altos quadros da "Goldman Sachs International" e alguns "intelectuais" por demais notórios. Serão movidos por alguma afinidade eletiva com o Presidente da Comissão Europeia? Não parece... nem mesmo entre os portugueses. Provavelmente, lá no fundo, encontraremos pouco mais do que a partilha de uma resignação oportunista à "soberania" dos mercados, o desprezo pela democracia e uma desgraçada miopia política.

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