Opinião

Depois das eleições europeias

Depois das eleições europeias

As eleições europeias foram dececionantes, por muito previsível e bem merecido que seja o duro castigo infligido pelos cidadãos europeus à manifesta incompetência exibida pelo governo da União na gestão da crise da moeda única, nos últimos quatro anos! Nada susteve a desamparada queda das forças políticas que até hoje conduziram a construção do projeto europeu, e o desastre geral - por razões tão díspares e em locais tão diversos como a Dinamarca, a Holanda, a Grécia, a República Checa ou o Reino Unido - iria exibir a sua expressão mais dramática e humilhante na França de Hollande... e de Le Pen! Apesar do sério esforço de renovação política e doutrinal que tem vindo a ser realizado pelas correntes sociais-democratas europeias, o grupo dos "socialistas e democratas progressistas" não conseguiu melhorar a sua posição no Parlamento Europeu e os indícios de esperança alimentados pela candidatura de Martin Shulz à sucessão de Durão Barroso ficaram comprometidos pela vantagem relativa que os "populares" de Ângela Merkel ali conseguiram preservar. É certo que o processo em curso, lento e timorato, da reforma das instituições europeias e da moeda única, continuará a progredir, sob pena de a Europa se precipitar pelo caminho de um irreversível declínio. Mas continuam a faltar as políticas, as causas, as condições anímicas indispensáveis à inversão deste ciclo de cinzenta submissão aos mercados financeiros e às forças que o controlam, o que promove a mesquinhez e os egoísmos nacionais e alimenta o risco permanente de desagregação. Para os países mais afetados pela crise das chamadas "dívidas soberanas", esta fragilidade é particularmente perigosa e reclama com urgência uma reação pronta e esclarecida.

Em Portugal, os resultados das eleições europeias não foram exceção a este modelo perverso. A direita que nos desgovernou nestes desgraçados três anos sofreu a sua mais séria punição em quarenta anos de história da nossa democracia. Ao naufrágio da direita, não correspondeu porém a afirmação clara de uma alternativa, ficando o PS encalhado, a curta distância, entre a subida galopante da abstenção, dos votos nulos e brancos, e as preferências difusas dos eleitores por outras forças de esquerda e independentes. É este o contexto em que devemos interpretar o "grito d"alma" de Mário Soares - quando qualifica o resultado eleitoral do PS como uma "vitória de Pirro" - e o repto lançado por António Costa à direção do Partido Socialista. Não interessa ao PS chegar ao Governo nas próximas eleições legislativas de qualquer maneira e a qualquer preço. Interessa-lhe, sim, conquistar o poder para cumprir o seu programa com a autonomia indispensável para conduzir negociações difíceis com outras forças políticas e com os parceiros sociais, para construir os consensos requeridos pela necessidade urgente de programas de combate ao desemprego e de relançamento da economia, afinal duas faces da mesma moeda. Mas, para isso, é também preciso um Governo disposto a assumir em Bruxelas os confrontos inevitáveis, capaz de construir alianças e articular estratégias com todos os que não se resignam ao dogmatismo orçamental vigente e ambicionam outras políticas fundadas nos valores originais do projeto europeu. Aliás, foram agora eleitos deputados europeus muito qualificados para o desempenho desta missão. A avaliação positiva do trabalho sério e difícil desenvolvido por António José Seguro ao longo destes três anos não pode ignorar a mensagem impiedosa veiculada pelos resultados eleitorais. Nem a derrota estrondosa da coligação do Governo, cuja demissão fora já exigida com inteira legitimidade no passado, desembocou agora na exigência de eleições antecipadas, nem a vitória da oposição exibiu a força polarizadora capaz de se constituir em sólida alternativa política. Uma profunda desconfiança - flagrante nestas eleições! - contamina as relações dos cidadãos com as instituições democráticas e os partidos. Não basta evitar a criação de falsas expectativas, o que se louva e reconhece. É preciso criar as condições para assegurar o cumprimento das expectativas legítimas de um compromisso de governação justa e solidária. O repto lançado por António Costa oferece uma derradeira oportunidade de clarificação política e, em qualquer caso, contribuirá para o reforço da liderança da oposição. É uma questão política a que não se responde com alegações regulamentares e processuais.

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