PRAÇA DALIBERDADE

Ordem do dia

Não me acontecia há muito tempo: pegar num livro e não o largar até à última linha da última página! Recomendo vivamente a leitura de "A ordem do dia", de Éric Vuillard (Edições D. Quixote, Alfragide, 2018), a "narrativa" que mereceu o Prémio Goncourt, em 2017. A capa reproduz uma fotografia de Gustav Krupp, imponente, com um sorriso confiante, luvas, chapéu de coco e aquele bigode minúsculo imortalizado por Adolf Hitler e Charlie Chaplin. Krupp, exatamente esse, o "rei do carvão e do aço", ainda hoje! O primeiro capítulo reconstitui a "reunião secreta" em que ele participou, juntamente com mais vinte e três de entre os maiores industriais alemães - designadamente: os donos da Opel, Siemens, IG Farben, Bayer, Allianz, Telefunken, Agfa, BASF, Varta, etc. A reunião, teve lugar na residência oficial do Presidente do Parlamento alemão, em Berlim, no dia 20 de fevereiro de 1933. Mais precisamente, na manhã de 20 de fevereiro de 1933, uma semana antes de os nazis incendiarem a sede do Parlamento alemão para acusar os comunistas da responsabilidade pelo crime. Apenas duas semanas antes das eleições de 5 de março, onde os nazis, apesar da campanha de manipulação e intimidação brutal, foram de novo o partido mais votado, mas sem conseguir a maioria absoluta que os eleitores alemães lhes continuaram a negar!

Porém, não lhes iria fazer falta... Foi o novo Presidente do Parlamento alemão, Hermann Goering, o criminoso nazi que seria mais tarde condenado pelo Tribunal Internacional de Nuremberga, quem deu as boas-vindas aos vinte e quatro representantes do poder económico e financeiro do país. Pediu-lhes uma generosa contribuição monetária e fez uma promessa. "E se o partido Nazi obtiver a maioria, acrescenta Goering, estas eleições serão as últimas nos próximos dez anos; e até - acrescenta, rindo - nos próximos cem". E chega por fim o novo Chanceler, Adolf Hitler. Falou cerca de meia hora: "Era preciso pôr termo a um regime fraco, afastar a ameaça comunista, suprimir os sindicatos e permitir que cada patrão seja um führer na sua empresa". Quando Hitler acabou de falar, em nome de todos os convidados, Gustav Krupp "agradeceu-lhe o ter por fim clarificado a situação política"... E no fim da reunião, a maior parte dos convidados entregou de imediato o seu contributo para a campanha eleitoral do Partido Nazi. Mais tarde, milhares de prisioneiros encarcerados nos campos de concentração foram transformados em escravos e seriam chamados a contribuir, gratuitamente, para o progresso das suas empresas.

Depois de descrever a fulgurante ascensão do nazismo alemão no princípio dos anos trinta, os cúmplices que seduziu e os opositores implacavelmente aniquilados pela máquina de propaganda e a sua tropa de choque sanguinária, Éric Vuillard aborda o contexto internacional. Detém-se na ilustração do comportamento das potências vizinhas - a Inglaterra, a França - e segue-os até ao seu anunciado desenlace: a invasão da Áustria. Primeiro, o retrato de Lorde Halifax, cínico com os fracos, compreensivo e condescendente com os nazis. Depois o retrato do Presidente francês, André Lebrun, que divaga. E na conferência de Munique, já em Setembro de 1938 - para salvar o Mundo da Guerra! -, posam para a posteridade os quatro chefes de Estado: Chamberlain, Daladier, Mussolini e Hitler. Na semana em que a anexação da Áustria se consumou, foram noticiados 1700 suicídios. Depois, foram proibidas as notícias de suicídios. Éric Vuillard identifica alguns, adivinha a sua desolação e o seu desespero... e presta homenagem aos mortos.

*DEPUTADO E PROFESSOR DE DIREITO CONSTITUCIONAL

ver mais vídeos