Opinião

Praxe mortal

Foi este o título da primeira página do JN de quarta-feira. Anunciava a sentença exemplar do Supremo Tribunal de Justiça que definitivamente confirmou a condenação da Universidade Lusíada de Famalicão pela "falha de segurança" que redundou na morte de um jovem estudante vítima da selvajaria "praxista". Nesse dia, realizava-se também o funeral de um outro jovem, este abatido pelos assaltantes das bilheteiras do "queimódromo", no Porto. Entretanto, desfilou imperturbável o cortejo académico pelas ruas da cidade e prosseguiram as festividades há muito programadas e inadiáveis por causa dos avultados investimentos envolvidos - como foi oportunamente justificado!

Tinha 17 anos quando entrei na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e, ao longo do primeiro ano do curso, confesso que cheguei a usar, com alguma frequência, a capa e batina - traje especialmente vantajoso para viajar à boleia entre o Porto e Coimbra, peregrinação que realizava, infalivelmente, todos os fins de semana. Em consequência das greves estudantis de 1969, o então ministro da Educação Nacional mandou fechar a sede da Associação Académica e os estudantes, em protesto, decretaram o "luto académico", o que determinou a suspensão da praxe, para alívio dos "caloiros" e das pessoas decentes. Apesar disso, fui obrigado a fazer declarações de amor a jovens mulheres desconhecidas, à porta de uma "República" na Rua dos Combatentes, tive de discursar no Pátio da Universidade em torno de analogias brejeiras inspiradas nos dois ciprestes que já não ladeiam a escadaria de acesso à Sala dos Capelos e, porventura, como premonição do meu destino, fui até "mobilizado" - eufemismo que designa as relações de pura coação impostas pela "praxe" - para fazer uma "tourada" na Faculdade de Medicina, o que consistiu na invasão de uma sala de aula para impedir um jovem assistente de proferir a sua primeira lição, interpelando-o com perguntas impertinentes e interrompendo-o sucessivamente com comentários jocosos. Esta primeira relação aparentemente jovial e tranquila com a praxe coimbrã iria acabar cedo, quando sete ou oito "praxistas" emboscados me surpreenderam ao cair da noite e, apesar do "luto" decretado, procederam, por suas próprias mãos, ao corte ritual da minha rebelde cabeleira. Esgotou-se nesse dia, para sempre, qualquer réstia de complacência por tão rudes tradições.

Iria reencontrar as praxes académicas muito mais tarde, com inesperada pujança e agressividade, quando regressei à Universidade como professor. À parte algum episódio de esporádico bom humor, é profundamente degradante o espetáculo das "praxes" exibidas nos espaços públicos das nossas universidades. Ao longo de todo o ano letivo os lugares de recreio e lazer são infetados pelos "praxistas", em uniformes negros, que conduzem os colegas do primeiro ano como se fossem rebanhos, em marchas e formaturas de paródia marcial, ridiculamente vestidos, com os rostos pintados, contorcidos em posições obscenas, coagidos a posturas humilhantes, obrigados a demonstrações de obediência canina aos sinais de comando dos seus rústicos pastores.

Não bastam os esforços concertados das autoridades universitárias e das associações de estudantes. A retórica sobre o "livre consentimento" dos "caloiros" esconde a natureza compulsiva e degradante destes simulacros de tribalismo iniciático bem identificado e caracterizado pelos antropólogos nas sociedades primitivas, a par das amputações e do canibalismo rituais. É preciso que esses jovens irresponsáveis e os adultos que os incentivam percebam que nenhum cidadão decente, nenhuma pessoa que se preze, pode aceitar que a missão da Universidade se degrade ao ponto de tolerar esta barbárie. O Diogo Macedo era um belo jovem de 22 anos quando foi cobardemente assassinado nesse ano distante de 2001. Um silêncio cúmplice esconderia para sempre os autores do brutal espancamento que levou o Diogo à morte. É demasiado tarde. Repetimos, com Fernando Pessoa: "Tão jovem! Que jovem era! / (Agora que idade tem?) /(...) "(Malhas que o Império tece!) / Jaz morto, e apodrece, / O menino da sua mãe".