Opinião

Salazar, nome de museu?

Salazar, nome de museu?

A explicação mais plausível para a extraordinária longevidade da ditadura salazarista reside na sua ostensiva mediocridade. Embora tenha conjugado esforços com os nazis alemães e com os fascistas italianos para esmagar os republicanos espanhóis, a violência exercida por Salazar contra os seus opositores internos nunca atingiu a colossal dimensão dos massacres continuadamente perpetrados pelo seu amigo Francisco Franco nem a trágica loucura imperial de Hitler e Mussolini.

Além disso, Salazar nem sequer conseguiu entrar na guerra, por força dos laços seculares que uniam Portugal à Inglaterra que, desde Aljubarrota, sempre deu contributo precioso para a defesa da independência do reino face ao apetite insaciável de Castela pela hegemonia peninsular.

A mesma neutralidade que lhe negou os louros da ofensiva vitoriosa da Alemanha, em 1939, iria contudo permitir-lhe a sobrevivência, após a rendição, em 1945. A partir da II Guerra Mundial, o fascismo português começou a moderar as grandiosas exibições de força e de glória que o regime cultivou, inicialmente, e até iria renunciar, mais tarde, ao Plano Marshal - o programe de apoio ao desenvolvimento e à reconstrução da Europa destruída pela guerra, oferecido pelos EUA - temeroso de que o desenvolvimento prejudicasse a mesquinha sobrevivência do seu poder ditatorial. Salazar perdeu todas as guerras em que nos meteu. Perdeu Goa, Damão e Diu, ocupada pacificamente pelas tropas indianas apesar de Salazar ter ordenado a sua defesa "até ao último homem". Perdeu as colónias de África em nome das quais conduziu a ditadura para o seu inexorável fim. Perdeu até contra a cadeira que providencialmente se desmanchou em 1968! "Pobrezinhos mas honrados" era a máxima promovida pelo velho Estado Novo para compensar a mediocridade e a amarga irrelevância a que o país se viu condenado por quase meio século!

Dar o seu nome a um museu, sim... mas onde? Numa das antigas delegações da sua polícia política? No Tarrafal? Em Moscovo, onde se refugiou Cunhal, fugido da cadeia de Peniche? Em Bader Munstereifel, onde o desterrado Mário Soares fundou o Partido Socialista? Salazar fez de Portugal uma irrisória peça de museu... uma relíquia tóxica, periférica e decadente. Santa Comba Dão não tem culpa de que ele lá tenha nascido. Nem os cidadãos residentes nem os seus eleitos estão obrigados a padecer eternamente essa memória triste e degradante, como fatalmente ocorrerá caso transformem a sua terra, por distração ou insensatez, em lugar de peregrinação dos saudosistas de Adolfo Hitler, de Benito Mussolini, de Francisco Franco e de alguns raros indígenas salazarentos.

*Deputado e professor de Direito Constitucional