Opinião

Um novo início

A Esquerda foi sempre a expressão do desejo de mudança. Pelo contrário, a Direita representa a resistência a que algo mude. É assim há mais de dois séculos, desde que Luís XVI convocou os "Estados Gerais" que, contra a vontade do rei, se transformaram na Assembleia Constituinte que desencadeou a Revolução Francesa para acabar com a servidão, o regime senhorial e o absolutismo monárquico de direito de divino. O Centro, porém, não tem definição nem substância própria salvo o que resulta das contraposições que pretenda conciliar. Sem a Esquerda, afunila-se o universo das opções possíveis, esbatem-se as diferenças que matizam o pluralismo, promovem a cidadania e dão sentido ao debate público. Degrada-se a política e corrompe-se a democracia. Não tratamos aqui de categorias morais: o "bem" e o "mal" apenas qualificam o mais feliz e o mais perverso do que mudou ou persistiu. A mudança política, porém, marca o destino da Esquerda.

Graças aos acordos alcançados entre os partidos da Esquerda, foi derrotada a moção de rejeição apresentada pelo PSD e o CDS na semana passada. O Governo socialista assumiu por fim a plenitude das suas funções e a maioria que o suporta demonstrou ser capaz de corresponder às expectativas dos eleitores que lhe confiaram o seu voto e o seu futuro. Ficou provado que a miséria e o desemprego não são uma fatalidade inelutável, que, afinal, ao contrário do que o Governo da Direita obsessivamente afirmou ao longo de quatro anos - ora como justificação para as suas opções ideológicas ora como disfarce para os seus fracassos - existe, de facto, uma alternativa política. O reencontro das esquerdas assinalou também a reconciliação dos socialistas com a tradição progressista da social-democracia europeia, de Helmut Schmidt e de Mário Soares, há muito abandonada por Blair e outros apóstolos da "terceira via".

A etapa que agora se cumpriu não descreve um caminho fácil e linear. O primeiro passo exigia a obtenção de uma vitória inequívoca nas "eleições primárias" abertas à participação dos simpatizantes, convocadas para responder ao desafio lançado por António Costa. É oportuno recordar que uma parte substancial dos "argumentos" usados pela Direita contra o atual secretário-geral, numa flagrante manobra de "destruição de caráter", foram ensaiados, originalmente, no âmbito do combate interno no Partido Socialista. Depois, a coincidência da prisão de José Sócrates com o congresso partidário que consagrou a nova liderança do partido, funcionou, perante a opinião pública, como uma espécie de "certificação" das acusações que responsabilizavam o PS por todas as desgraças do país. O prolongamento da prisão preventiva do antigo primeiro-ministro e os sucessivos incidentes processuais, acompanhados pela violação sistemática do segredo de justiça, engendraram um fantasma que assombrou toda a campanha eleitoral. Foi neste contexto profundamente adverso, e apesar dele, que o PS construiu o seu programa eleitoral, persuadiu os cidadãos da bondade das suas propostas e até se viu obrigado a demonstrar aos opositores que as suas contas estavam certas, que as medidas haviam sido calendarizadas com rigor e que os impactos económicos e financeiros das políticas que propunha tinham sido devidamente calculados.

A nova etapa que agora se inicia enfrenta problemas de elevada complexidade e terá de responder a sérios desafios que reclamam, como dizia aqui, há duas semanas, a articulação inteligente das duas frentes em que este combate vai ser travado: a prática governativa e o trabalho parlamentar. O Governo, pela sua estrutura e composição, mostra que soube resistir à voracidade habitual dos aparelhos e das clientelas partidárias. A sociedade portuguesa continua a revelar grandes dificuldades no confronto com os seus preconceitos e práticas discriminatórias larvares. Apenas por isso, justifica-se destacar a presença, por mérito próprio, da ministra Francisca Van Dunem na pasta da Justiça, e dos secretários de Estado Carlos Miguel, nas "autarquias locais", e Ana Sofia Antunes, na "Inclusão das Pessoas com Deficiência". Por sua vez, o Parlamento assumiu um papel decisivo que lhe confere uma centralidade inédita na ação política e que o vai expor, inapelavelmente, ao mais severo julgamento dos eleitores que representa. Que seja a bem da democracia!