Opinião

Mudar o Mundo (II)

Nas décadas de 60 e 70, mudar o Mundo era tópico dominante no discurso político, nos movimentos sociais e nos meios de comunicação. A necessidade de mudar tinha um sentido claro de denúncia da injustiça e condenação da hipocrisia dos que fingiam aderir à mudança apenas para que tudo continuasse na mesma.

A submissão e a prudência eram valores objeto de verrinosa sátira e comum menosprezo - por exemplo, na prosa poética de Alberto Pimenta - em contraponto ao rasgado elogio da autenticidade, da liberdade e da ousadia. A irreverência era marca de uma cultura juvenil apreciada por muitos e tolerada por todos. Até os poemas de uma banda politicamente tão moderada como os Beatles denunciavam o conformismo e o "aburguesamento". Lembram-se dos "porquinhos" do Álbum Branco, "a chafurdar na lama"? E dos "grandes porcos" de camisa lavada a comer toucinho, de faca e garfo, no restaurante? ("The little piggies", 1968). Ou da rapariga que sai de casa, angustiada, pela calada da noite, para fugir com o amante, um vendedor de automóveis? (She"s leaving home", 1967). E do coro trágico, entoado pelos pais inconsoláveis que, no final, se interrogam: "Que erro cometemos? / Não sabíamos que era errado... / A alegria é a única coisa que o dinheiro não pode comprar"...

Por esse mesmo tempo, Paco Ibáñez cantava, sarcástico, "Me lo decía mi abuelito, / me lo decía mi papá (1969), da autoria do grande poeta de Espanha, José Agustín Goytisolo: - "Anda muchacho y dale duro!/ La tierra toda, el sol y el mar, / son para aquellos que han sabido / sentarse sobre los demás." Ou, ainda, essa fabulosa balada que foi canção de embalar dos meus filhos, onde Goytisolo sonha o Mundo virado do avesso: "Erase una vez / Un lobito bueno / Al que maltrataban / Todos los corderos / Y había también / Un príncipe malo / Una bruja hermosa / Y un pirata honrado".

Bem pelo contrário, a mensagem mais insistente que hoje se faz ouvir é a de que o dinheiro compra tudo: as dívidas "soberanas" dos estados, as pensões "insustentáveis" dos reformados, o futuro sombrio dos mais novos, condenados ao desemprego e à dependência das famílias. De facto, as novas gerações são as primeiras vitimas desta ideologia desumana que prega o "salve-se quem puder", vira os jovens contra os velhos e promete a salvação apenas para "os escolhidos": os mais brutais e ambiciosos! É esta a ideologia impiedosa que nos condena à volatilidade dos mercados financeiros e ao acaso das operações especulativas: o sucesso individual como miserável sucedâneo da procura da felicidade. É o Mundo que é urgente mudar.

Viva o 1.º de Maio!

*Deputado e professor de Direito Constitucional