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Opinião

Onde está o populismo?

Onde está o populismo?

O Parlamento transformou-se, por estes dias, numa arena de circo. O espetáculo, porém, foi frouxo e breve. Tudo começou por um número de ilusionismo, com deputados do PSD e do CDS tentando serrar o Governo, supostamente encarcerado no clássico baú.

Prosseguiu com acrobacias inesperadas e terminou com uma queda fatal do trapézio. A crise política arduamente posta em cena pela Direita ressabiada, com o mero intuito de explorar possíveis fragilidades na solução governativa que consecutivamente desmentiu todas as suas tenebrosas profecias, esfumou-se no instante em que o primeiro-ministro os avisou de que o Governo da República não é uma brincadeira. Não tarda, saberemos se aprenderam a lição. O primeiro-ministro não fugiu às responsabilidades assumidas perante os eleitores. Bem pelo contrário, foi justamente em nome dos compromissos políticos que sempre defendeu quer nos acordos com os parceiros da aliança parlamentar da Esquerda quer nas negociações com os sindicatos e perante os cidadãos, que anunciou a intenção de se demitir e a justificou sem ambiguidades. Mostrou compreender e respeitar as razões e os compromissos dos parceiros da aliança parlamentar das esquerdas. Não ficou à espera da reação cúmplice ou adversa do Presidente da República. Apenas se declarou pronto a prestar contas aos eleitores!

A confiança é o bem mais precioso numa democracia. Quando os cidadãos deixam de confiar nos representantes que escolheram, dececionados pelas promessas que ficaram por cumprir, pelos programas eleitorais que não foram respeitados, pelas falsas desculpas que levianamente remetem para terceiros e outras causas imponderáveis, quando os representados já não acreditam nos seus eleitos, então degrada-se a República, fenece a participação cívica e cresce o populismo. É esta a epidemia que corrói as instituições políticas democráticas em muitos países da Europa e das Américas. É desta doença que padece a nossa Direita parlamentar quando se dispõe a entendimentos espúrios com as forças políticas e os sindicatos que sempre combateu, oferecendo aos grupos e movimentos sociais que profundamente despreza uma mão-cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Tal como, aliás, logo explicaram o PSD e o CDS, com inteira desfaçatez, logo que se viram desmascarados.

Reparar injustiças, repor rendimentos, devolver a esperança aos que desesperavam de conseguir um emprego e construir uma vida digna são aquisições essenciais desta legislatura. Restabelecer a confiança na política e na representação democrática continua a ser o principal desafio. É longo o caminho a percorrer.

*Deputado e professor de Direito Constitucional