Opinião

Para acabar com a liberdade...

Para acabar com a liberdade...

Doses massivas de informação sob a forma de imagens, reportagens, entrevistas e comentários, dilatadas e repetidas em cada bloco noticioso, continuam a ser debitadas através dos meios de Comunicação Social, a pretexto dos mais recentes atentados terroristas. Na mira de cativar audiências, esta superabundância noticiosa combina de modo perverso ingredientes diversos. Imagens das vítimas, dos supostos autores e dos lugares devastados pelas explosões. Entrevistas a familiares, vizinhos e testemunhas dos atos terroristas. Fragmentos de resultados provisórios das investigações policiais, em permanente atualização. Especulações mais ou menos sofisticadas. Inquéritos com pretensões "sociológicas" sobre os habitantes de áreas residenciais suburbanas, que agravam, inevitavelmente, a respetiva estigmatização.

Nos horários nobres, esta programação substituiu ou relegou para segundo plano toda a atualidade política nacional, as reportagens sobre os refugiados no Mediterrâneo ou a crise "golpista" no Brasil. Outros atentados, que normalmente seriam minimizados por ocorrerem em regiões mais distantes do continente europeu, merecem agora inusitada atenção, transformados em câmara de ressonância das atribulações ocidentais. A superabundância noticiosa sobre os atos terroristas cria a perceção falsa de que se trata de um fenómeno inédito no "Ocidente", o que manifestamente não é verdade.

Como todos bem sabemos, as atividades do Exército Revolucionário Irlandês - IRA -, da ETA basca, das "Brigate Rosse" italianas ou do Baader-Meinhoff alemão, para considerar apenas estes últimos 50 anos, dispensam-nos de recuar a tempos mais remotos em que o terror e a violência foram protegidos como instituição: dos autos de fé do Santo Ofício ao holocausto nazi. Sobram também os exemplos de âmbito doméstico, desde o julgamento dos Távoras - nos tempos do Marquês - ao Buíça, aos movimentos de libertação das colónias africanas, ao "ELP" ou às "Brigadas Revolucionárias".

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O terrorismo é um fenómeno anterior a todas as civilizações - porventura mais antigo do que própria invenção da escrita - e, de facto, nunca a humanidade teve ocasião de se habituar a viver sem ele. O que o distingue na atualidade, não são particulares motivações religiosas, étnicas ou ideológicas, o espetáculo de brutalidade, os laços de sangue, as afinidades culturais ou sequer a sofisticação organizativa. A diferença está na generalização do acesso aos meios tecnológicos do nosso tempo e disso, não há forma de os excluir. A diferença está nas sociedades cosmopolitas do nosso tempo, numa diversidade cultural de que antes desfrutávamos como um bem mas que agora nos descrevem como um perigo.

Reclama-se a pretexto do horror, a drástica restrição das liberdades de todos, para facilitar as ações das polícias, o prolongamento indeterminado dos "estados de exceção", a resignação às violações da privacidade, a alteração radical de velhos hábitos e profundas mudanças nos nossos modos de vida. Identificam-se os imigrantes e refugiados com os terroristas. Alimenta-se a perceção sinistra de que a ameaça vem do exterior, fecham-se fronteiras e constroem-se muros como se fosse possível transformar um continente numa fortaleza inexpugnável.

E assim se evita, no plano interno, a ponderação dolorosa das consequências sociais das políticas de austeridade friamente concebidas ao gosto dos mercados financeiros. E assim se ocultam as consequências das opções de política externa "administradas" pelo "Ocidente" na Palestina, Israel, Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia e Ucrânia. De Gibraltar aos Urais, permite-se que o ódio fermente até que se confunda a vítima com o agressor, a liberdade com a xenofobia, o sofrimento com o destino. É a hora de sair em defesa das liberdades cívicas e da democracia social, da paz e da solidariedade. É a hora.

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